Oportunidade rara. Na hora que a República mais precisa equilibrar o caixa desmantelado pelo desajustado governo brasileiro, aparece os Estados Unidos precisando de terras raras — abundantes aqui, segunda maior reserva mundial, 1/5 das terras raras do planeta, atrás apenas da China.
É um bilhete premiado, mas para receber o prêmio, o Brasil precisa retornar ao caminho americano. Ou Estados Unidos ou nada. A China não financiará um concorrente direto em terras raras. Podem até comprar mais minério brasileiro, mais mineradoras no Brasil, mas Pequim jamais transferirá tecnologia ou ajudará o Brasil a refinar terras raras e derivados.
Prova isso, o Regulamento de Gestão de Terras Raras (Decreto nº 785), publicado na semana passada pelo Ministério do Comércio da China — documento de 7 mil palavras que instituiu de forma unilateral um agressivo sistema de licenciamento obrigatório para qualquer empresa que utilize produtos, tecnologias ou materiais originários da China.
A medida tem pretensões extraterritoriais, visa controlar o comércio global. A partir de 1º de dezembro de 2025, até mesmo produtos fabricados fora da China (que contenham insumos, ligas ou tecnologias chinesas) precisarão de licença para circular.
Em termos práticos: uma empresa brasileira, que produza motores ou catalisadores com insumos de origem chinesa, passará a depender da aprovação de Pequim para exportar — mesmo que o produto final seja brasileiro. Uma turbina eólica brasileira (com ímãs de neodímio processados na China) precisará de autorização chinesa para exportação.
O cerco sem precedentes abrange toda a cadeia: mineração, separação, refino, reciclagem e tecnologias associadas a terras raras.
O regulamento caiu como uma bomba. Ninguém gostou. Nem a Rússia. Nem a Turquia. Ninguém. A voz corrente foi a lembrança da guerra do Ópio — quando a China, mesmo com a Razão, subestimou o Ocidente, perdeu territórios e terminou humilhada por mais de 100 anos.
O objetivo chinês é hegemônico. Tenta dificultar que o setor de minerais críticos façam negócios com os americanos; negará licenças para exportadores que vendam para os EUA; e oferecerá acordos preferenciais a países que não vendam.
O Brasil está no meio desse choque, diante de mais uma oportunidade concreta, podendo tornar-se alternativa global à China em minerais críticos. O único empecilho para essa entrada na terra dos gigantes será o ranço dogmático do presidente Lula.
O governo Lula bandeia para a China, justamente quando Washington oferece parceria estratégica em minerais críticos. A “Inflation Reduction Act” e iniciativas como a “Defense Production Act” demonstram que a disposição de financiar cadeias produtivas fora da China.
Lula diz querer as terras raras para o Brasil, mas sequer conseguiu abrir a mina de urânio de Santa Quitéria, fechada desde a descoberta nos tempos do grande cearense Chico Figueiredo nos 70’s.
Esse Brasil MNR (que minera, mas não refina) e NMNR (que não minera nem refina) precisa acabar. Ter e não explorar é o mesmo que desperdiçar. Não temos capacidade nacional de separação, refino e produção. E nem mesmo há capacidade para a exportação do minério bruto. Falta infraestrutura industrial e, sobretudo, faltam líderes (na situação e na oposição) para fazer a mineração avançar.
Indústrias de ímãs, ligas, catalisadores, semicondutores, tornariam o Brasil estratégico na transição energética — movida a carros elétricos, turbinas eólicas, baterias etc.
O ciclo das terras raras dependerá dos eventuais compradores. E só existe um: os Estados Unidos — que abriu a janela, mas não a deixará aberta indefinidamente, porque outros países (Austrália, Vietnã, Mongólia, Groenlândia e até a Rússia via o Ártico) também competem ou estão seduzidas por investimentos americanos.
A China quer ser a dona das terras raras para ser a dona da bola no mercado global. Mas a realidade chamada Trump reescreveu a narrativa da ascensão inevitável da China, como disse o CEO Walter Maciel, o estoico da Faria Lima, os EUA não apenas sobreviveram as crises, subiram de nível.
O Brasil conseguirá aproveitar sua riqueza em terras raras? Eis mais um teste da maturidade brasileira: seremos fornecedor ou parceiro de alta tecnologia? Protagonista ou espectador na reconfiguração das cadeias globais? A resposta dirá muito sobre o futuro das próximas décadas.
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1. Com esse licenciamento obrigatório, Pequim tenta transformar sua dominância no refino (controla cerca de 85-90% do processamento mundial) em alavanca geopolítica. Mas não está totalmente claro como será o monitoramento dos produtos feitos fora da China. A fiscalização extraterritorial não é fácil. Esse regulamento chinês pode virar uma grande piada.
2. O governo Lula não defendeu nem condenou a “a legitimidade” da regulamentação dessas restrições unilaterais impostas pela China, mas uma matéria publicada na Agência Brasil foi favorável à narrativa chinesa.
3. Os EUA precisam urgentemente diversificar o fornecimento. O setor de defesa americano consome quantidades massivas de terras raras em sistemas de mira, lasers, motores e eletrônicos. Fontes confiáveis indicam que para fazer um caça F-35 são precisos 400 kg de terras raras. Os F-22 Raptor e o B-2 Spirit, segredo de Estafo, levam bem mais. Destróieres usam toneladas. Além de mísseis (Tomahawk, Patriot) e drones.
4. A mineração anima investidores. O Brasil projetou US$ 50,5 bilhões entre 2023 e 2027. A exploração de lítio já transformou o paupérrimo Vale do Jequitinhonha em fronteira rica entre Minas Gerais e Bahia.
