Na manhã desta quarta-feira (01/10), unidades escolares de Parambu, no Ceará, foram alvo de pichações com a sigla “PCC” nos muros e fachadas. O episódio reacende o temor da população local e evidencia o avanço cada vez mais audacioso de facções criminosas no interior do Estado, inclusive em espaços antes considerados “seguros” como escolas.
Avanço das facções no Ceará e nova geografia do crime
O Ceará vive um momento de intensificação da presença de organizações criminosas nacionais atuando em parceria com grupos locais. O Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP) já firmaram “franquias” cearenses, operando em territórios estratégicos do Estado. O PCC também aparece como ator emergente em algumas disputas regionais.
Em setembro de 2025, um episódio emblemático chamou atenção: o ataque a estudantes na Escola Estadual Professor Luiz Felipe, em Sobral, deixou duas mortes e três feridos. A investigação aponta que o crime teria sido orquestrado por facção criminosa rival, possivelmente envolvendo disputas entre PCC e CV. O secretário de Segurança Pública do Ceará classificou as mortes como execução premeditada.
Especialistas ouvidos pela imprensa afirmam que o Estado não está “dando conta” de conter a influência desses grupos. O ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente afirmou que o Ceará enfrenta índices de violência 80% acima da média nacional nos últimos 10 anos, e que o trabalho de inteligência precisa ser substancialmente reforçado.
A crise de segurança é visível também em ataques à infraestrutura: provedores de internet, por exemplo, têm sido alvo de cortes de cabos, ameaças e intimidações frente à recusa de pagamento de “taxas” por facções.
Incapacidade do poder público e risco à população escolar
A pichação do PCC em Parambu demonstra que o crime organizado ousa marcar presença em ambientes comunitários, inclusive em escolas rurais ou interioranas que dependem da proteção do Estado para garantir segurança. O governo estadual, até aqui, tem falhado em impedir que facções avancem fisicamente e simbólicamente.
As reações às ofensivas recentes foram tardias e essencialmente reativas, reforços policiais emergenciais, criação de gabinetes de crise, promessas de operações especiais, mas sem estratégia consistente e proativa de investigação e desmantelamento das lideranças criminosas.
Em casos semelhantes, escolas já foram alvo de ameaças, pichações e até ataques a tiros, mostrando que o espaço escolar já não é inviolável. Se facções marcam território em locais públicos e vulneráveis, cabe ao Estado responder com políticas de segurança integradas, presença constante, inteligência e articulação com a educação para proteger alunos, professores e comunidade.
A pichação com a sigla do PCC em Parambu é sintoma de um problema mais profundo: o progressivo enfraquecimento do poder público frente ao crime organizado no Ceará. Quando facções alcançam até os muros das escolas, a autoridade estatal perde legitimidade.
Se o governo do Estado continuar atuando apenas no “modo reativo”, sem foco estratégico e previsível, a escalada de violência e ocupação territorial poderá se intensificar, com consequências graves para a sociedade.
