Santa Quitéria/CE – A decisão que colocou em liberdade o prefeito afastado José Braga Barrozo (Braguinha), investigado por suposta ligação com a facção criminosa Comando Vermelho (CV), está sendo duramente contestada pelo MDB de Santa Quitéria. O partido protocolou um pedido de reconsideração ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), apontando risco real de interferência nas investigações, intimidação de testemunhas e destruição de provas.
Braguinha estava preso preventivamente desde 1º de janeiro de 2025, após ser acusado de ter vencido as eleições com apoio logístico e violento do CV. Em 18 de março, foi liberado da prisão domiciliar por decisão do desembargador Luciano Nunes Maia Freire, com base em alegados problemas de saúde — porém, sem laudo pericial oficial divulgado até o momento que comprove tal condição.
A soltura causou espanto pela rapidez com que o prefeito retornou à vida política ativa. Braguinha desembarcou em Santa Quitéria cercado de aliados e participou de comemorações públicas, evidenciando não só sua plena disposição física como também sua tentativa de retomar o controle político da cidade.
Entre os presentes, estavam nomes como Gabriel Filho, Luciano Maia e Erandir Paiva Timbó (conhecido como Manjado), além de Francisco Santiago, que se declara membro do Comando Vermelho. A menção dessas figuras em atos públicos com o prefeito afastado, embora não signifique participação em crimes ou investigações, reforça as preocupações políticas quanto à possível obstrução das investigações.
Um histórico de afastamentos
Durante o seu mandato, Braguinha esteve ausente da prefeitura por longos períodos. Em abril de 2023, foi afastado por 180 dias por decisão judicial, sob suspeita de irregularidades em contratos de limpeza urbana e abastecimento de veículos. Embora o processo de cassação tenha sido arquivado pela Câmara, o Tribunal de Justiça do Ceará prorrogou o afastamento por tempo indeterminado, mantendo-o fora do cargo até o final daquele ano. Em seguida, em janeiro de 2025, foi preso preventivamente sob acusação de ter sido reeleito com apoio da facção Comando Vermelho. Somados, os afastamentos de Braguinha já totalizam cerca de 18 meses fora do cargo nos últimos dois anos, período em que o município esteve sob constante instabilidade política e institucional.
Perigo à ordem pública e à verdade
Em seu informativo, o MDB afirma que a liberdade de Braguinha, nas atuais circunstâncias, “representa ameaça direta à ordem pública e ao andamento justo do processo eleitoral”, e destaca que, mesmo afastado formalmente do cargo, ele continua a exercer influência direta por meio de seu filho, Joel Braga Barrozo, atual prefeito interino e presidente da Câmara Municipal.
“A soltura do réu, sem perícia técnica e com demonstração pública de força política, compromete a integridade do processo. O risco de intimidação de testemunhas e destruição de provas é concreto e imediato”, aponta o documento.
Além disso, Joel Braga está em seu terceiro mandato consecutivo à frente do Legislativo, o que fere frontalmente decisão recente do Supremo Tribunal Federal (ADI 6.524 e Reclamação 75.268), que limita a uma única reeleição para cargos nas Mesas Diretoras. Isso fortalece o pedido do MDB pelo afastamento imediato do filho de Braguinha, como forma de impedir qualquer interferência institucional no andamento das investigações.
Um caso que pode fazer história
Santa Quitéria vive um momento crítico, em que a relação entre política local e crime organizado tem sido alvo de denúncias e enfrentado reação popular. O caso de Braguinha pode se transformar em referência nacional sobre o uso de estruturas criminosas para obtenção de mandatos eletivos e sobre os riscos da banalização da prisão domiciliar em contextos políticos delicados.
O TRE agora analisa o ofício. A cidade aguarda a resposta das instituições que, mais do que nunca, são chamadas a proteger a democracia e o Estado de Direito.


Nota de Atualização
Em atenção à notificação extrajudicial encaminhada pelo Sr. Erandir Paiva Timbó, por meio de seu representante legal, esclarecemos que:
O nome do Sr. Erandir Paiva Timbó foi mencionado na matéria publicada em 27 de março de 2025, intitulada “MDB de Santa Quitéria denuncia: Soltura de Braguinha ameaça Justiça, beneficia facção e pode calar testemunhas”, de forma que pode ter gerado interpretação equivocada quanto à sua condição legal.
Conforme informado pelo próprio notificado, o Sr. Erandir Paiva Timbó declara que não é investigado em nenhum processo criminal relacionado ao prefeito afastado José Braga Barrozo (Braguinha), nem responde por qualquer ato de obstrução de Justiça.
Esclarecemos ainda que a matéria mencionou nomes presentes em eventos públicos relacionados ao retorno político de Braguinha, mas não afirmou que todos os citados são alvos formais de investigação criminal.
Nos comprometemos com a responsabilidade jornalística e com o respeito ao contraditório e à ampla defesa, estando sempre abertos a acolher manifestações dos mencionados em nossas reportagens.
