Bolsonaro mantém dianteira para 2022, mas com favoritismo sob ameaça

Bolsonaro mantém dianteira para 2022, mas com favoritismo sob ameaça

Pesquisa presidencial exclusiva mostra que os conhecidos problemas de gestão começam a provocar uma deterioração relevante na sua aprovação.

Em meio a uma crise sanitária, política e econômica pressionando a sua gestão — inclusive com o início de uma barulhenta CPI investigando os erros cometidos na pandemia —, Jair Bolsonaro mostra mais uma vez a sua impressionante resiliência eleitoral. Mesmo durante a tempestade, um em cada três brasileiros não só apoia o seu desempenho no Palácio do Planalto como está inclinado a lhe conceder um segundo mandato na eleição presidencial de 2022 — algo que ele planeja, aliás, desde o dia em que iniciou o primeiro —, conforme revela um novo levantamento exclusivo feito para VEJA pelo instituto Paraná Pesquisas.

 

 

Ainda que com o cenário pré-eleitoral cada vez mais movimentado, com a entrada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa e com as articulações do centro ganhando força nos últimos dias, o presidente lidera nas quatro simulações de primeiro turno, com porcentuais que variam de 32,7% a 34,5% dos votos, sempre seguido de perto pelo petista. O mesmo contingente — 32,1% — diz que considera o seu governo ótimo ou bom. No segundo turno, ele está à frente dos principais rivais. De forma até certo ponto surpreendente, o capital eleitoral do capitão reformado do Exército é quase o mesmo de antes da Covid-19, que deixou um rastro de mais de 415 000 mortos, impactou a economia do país e aumentou a pressão sobre a sua administração, materializada não só na CPI, mas em 115 pedidos de impeachment protocolados na Câmara, um terço deles nos últimos dois meses — por ora, nenhum com ambiente político para prosperar.

Nem tudo, porém, é céu de brigadeiro no horizonte eleitoral de Bolsonaro. A nova pesquisa mostra que os conhecidos e demasiados problemas de sua gestão começam a provocar uma deterioração relevante na sua aprovação. A taxa daqueles que consideram o seu governo ótimo ou bom caiu 6 pontos porcentuais desde outubro (38,7% para 32,1%), enquanto a dos que consideram ruim ou péssimo subiu 11 (32,1% para 43,1%). Em dezembro, a taxa de aprovação era maior que a de reprovação, situação que se inverteu na nova pesquisa (veja quadro). “O governo não tem consistência na questão mais importante, que afeta a vida das pessoas neste momento. Isso está progressivamente solapando a imagem do presidente”, diz o cientista político da USP José Álvaro Moisés. Entre as maiores rejeições, chama atenção o mau desempenho em faixas estratégicas da população — como jovens (58,7%) e mulheres (57%) — e no Sudeste, onde o índice cresceu 6 pontos porcentuais em dois meses e chegou a 54,9%, praticamente o mesmo do Nordeste (55%), região mais hostil ao bolsonarismo. Outro alerta: mesmo que seja mantido até o ano que vem, o apoio de um terço do eleitorado garante a ida ao segundo turno, mas não a vitória no round final. O cenário que se desenha é de uma disputa acirrada, pois vem caindo a distância de alguns dos principais rivais: Lula, Ciro Gomes (PDT) e mesmo João Doria (PSDB).

 

 

Para evitar novos e maiores solavancos em sua popularidade, Bolsonaro se esforça para que o rebanho mais fiel não se desgarre de sua base eleitoral. “São as pessoas que têm forte identificação ideológica com o presidente”, define Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas. Um exemplo recente dessa política de acenos foi a postura do capitão diante dos atos realizados no feriado de 1º de maio, a maioria deles embalado pela pregação negacionista em relação à pandemia, ataque às instituições e pedidos de radicalização do governo. O presidente fez questão de usar um helicóptero da FAB para sobrevoar a manifestação em Brasília, numa espécie de endosso ao discurso, em grande parte alimentado por ele, como a cruzada contra o distanciamento social e a defesa de bandeiras exóticas, como o uso da cloroquina contra a Covid-19 e a volta do voto impresso. Só nesta semana ele ameaçou baixar um decreto contra as restrições adotadas por estados e municípios e disse que o novo coronavírus foi criado em laboratório na China como parte de uma guerra biológica.

 

 

Nesse contingente ideológico, o segmento que mais se destaca é o evangélico, onde ele chega a obter 46% dos votos no primeiro turno, principalmente em razão da defesa de uma pauta conservadora nos costumes. “Bolsonaro mantém a base através da superexposição como presidente e de políticas de costumes e autoritárias. Há um componente ideológico de direita e extrema direita e um componente eleitoral antipetista alimentados por ele”, avalia Moisés. Um dos principais objetivos desse discurso regado a negacionismo, autoritarismo, anticomunismo e conservadorismo é marcar posição contra os postulantes à sua esquerda, sobretudo Lula. Liberado de suas condenações pelo STF, o petista se tornou rapidamente o seu principal adversário — passou de 18% em março para quase 30% das intenções de voto.

 

 

A ascensão de Lula tende a radicalizar o embate entre os extremos e já complica a vida de candidatos como Ciro Gomes. Ele superava a marca de dois dígitos nas pesquisas anteriores e, na atual, não passa de 7%. Outros políticos que buscam se colocar entre os polos mais radicais sofrem do mesmo dilema. Há, no entanto, espaço para crescer até 2022, como mostra o potencial de voto revelado no levantamento: 42,1% dizem que poderiam votar em Ciro e 39,9% afirmam o mesmo em relação a Doria. Uma das necessidades, no entanto, é que eles marquem diferenças em relação aos líderes, empunhando alguma bandeira com forte apelo popular.

 

 

O discurso anticorrupção tem potencial para se transformar no estandarte capaz de alavancar uma candidatura de centro. Esse tema foi decisivo em 2018, mas dificilmente poderá ser levado à campanha de 2022 por Bolsonaro e muito menos por Lula (o primeiro tem a família assombrada pelo fantasma das rachadinhas e o segundo ainda está longe de se livrar de todas as múltiplas encrencas na Justiça). “O lavajatismo é importante para a terceira via porque ele tem militância espontânea, tem eco na sociedade”, afirma Murilo Hidalgo. No cenário de primeiro turno, aliás, o ex-juiz Sergio Moro, símbolo maior da Lava-Jato, aparece em terceiro lugar, atrás apenas de Bolsonaro e de Lula. Mesmo que não se candidate (algo cada vez mais provável), Moro poderá ter um papel importante no pleito caso embarque em alguma campanha.

 

 

Outra variável importante é quem vai capitalizar mais a CPI da Pandemia, que começou os trabalhos nesta semana no Senado e já mostrou que será uma fonte importante de desgaste para o governo. Os depoimentos dos ex-ministros da Saúde Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta — este também um presidenciável pelo DEM — mostraram que o presidente foi peça-chave na tomada de atitudes que agravaram a crise sanitária, como a demora para comprar vacinas. O pior, no entanto, foi o não depoimento de Eduardo Pazuello, o general que o presidente escalou para liderar o combate ao coronavírus em seu pior momento: Pazuello alegou que havia tido contato com infectados e faltou ao depoimento marcado para a quarta 5. O episódio serviu de munição para a oposição, que o usou para cravar no ex-ministro a pecha de que o general se acovardou diante do Senado.

 

 

Embora ainda haja fatos políticos relevantes em andamento e uma longuíssima jornada até 2022, já é bastante visível uma estratégia no xadrez das próximas eleições: tanto Lula quanto Bolsonaro apostam em um enfrentamento mútuo no segundo turno. Para isso, cada um tenta reduzir, a seu modo, a chance de crescimento de uma terceira via. Bolsonaro faz discursos quase diários contra o isolamento social adotado pelos estados e usa uma suposta defesa do direito de trabalhar e de ir e vir para atacar governadores, em especial Doria. Já Lula tenta ampliar o espectro ideológico de sua candidatura. Ele desembarcou em Brasília nesta semana para uma agenda de encontros que incluíram gente do Centrão, caciques do MDB e parlamentares de esquerda. Além de nomes como o ex-presidente José Sarney (MDB) e o ex-senador Eunício Oliveira (MDB-CE), Lula mantém conversas com o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-­RJ), com quem esteve na quarta 5 e defendeu uma união entre esquerda e centro para derrotar Bolsonaro. Também se sentou à mesa com representantes de legendas como PSOL, PSB, PDT e Rede para debater cenários eleitorais para 2022 e pode se encontrar, mais à frente, com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

 

 

Espremido entre os líderes, o centro político tenta ao mesmo tempo desidratar Bolsonaro e brecar a ascensão de Lula para seguir viável na disputa. Por meio de vídeos idealizados pelo marqueteiro João Santana, ex-­bruxo de campanhas petistas e recém-contratado pelo PDT, Ciro partiu para o ataque a Lula, chamando-o de ex-presidente que “deu pouco para os pobres e muito, muito mesmo, para os ricos”. Doria, por sua vez, tenta explorar o potencial eleitoral de seu empenho pela vacina, enquanto espera um desgaste maior de Bolsonaro, que adotou postura oposta. Quer ainda assumir a dianteira de uma frente para enfrentar o petismo e o bolsonarismo, mas apresenta desempenho ainda muito modesto nas pesquisas e terá de enfrentar prévias duras dentro do partido, no qual é rejeitado por vários caciques tucanos. “O fundamental nesse caminho é o diálogo constante com as forças que não fazem parte dos polos antagônicos”, prega Bruno Araújo, presidente do PSDB, que tem quatro presidenciáveis (além de Doria, o senador Tasso Jereissati, o ex-senador Arthur Virgílio e o governador gaúcho Eduardo Leite). Para Murilo Hidalgo, este é outro problema: o excesso de postulantes. “O centro só vai ter alguma chance quando houver desistências. Há muitos nomes que provavelmente não serão candidatos, mas que estão ocupando esse espaço”, diz. No xadrez em curso para 2022, ainda é possível recuperar o tempo perdido diante de um cenário em que nem o favorito Bolsonaro pode cantar vitória antecipada, mesmo contando até aqui com seu fiel rebanho.