Jornalista Dexter Filkins descreve militar iraniano morto pelos Estados Unidos. Leia antes de acreditar em 3º Guerra Mundial

Jornalista Dexter Filkins descreve militar iraniano morto pelos Estados Unidos. Leia antes de acreditar em 3º Guerra Mundial

Ceará em Off apresenta-lhe o jornalista norte-americano Dexter Filkins, especializado em Oriente Médio. Ele trabalha no jornal The New Yorker. Também trabalhou no Miami Herald e no Los Angeles Times, em Nova Deli, cobrindo o Sul da Ásia e Iraque, onde ficou baseado de 2003 a 2006.

Em 2009, ganhou o Prêmio Pulitzer. Recebeu inúmeros prêmios: dois George Polk e três Overseas Press Club Awards.

Seu livro, "A Guerra Para Sempre," ganhou o 2008 National Book Critics Circle Award de não-ficção e foi nomeado melhor livro do ano pelo Times, Washington Post, Time e Boston Globe.

Nesse longo texto, publicado no semanário The New Yorker há sete anos, no dia 30 de setembro de 2013, fez o perfil do “Comandante Sombra” Qassem Suleimani, estrategista da expansão política do Irã no Oriente Médio até ser abatido (em 02/01) por drones americanos no aeroporto de Bagdá, capital do Iraque.
Boa leitura.

O comandante Sobra
Por Dexter Filkins
(30 de setembro de 2013)

 

Em fevereiro passado (2013), alguns dos líderes mais influentes do Irã reuniram-se na Mesquita Amir al-Momenin, nordeste de Teerã, para prestar as últimas homenagens a um companheiro morto: Hassan Shateri — veterano das guerras secretas do Irã em todo o Oriente Médio e sul da Ásia, comandante da Força Quds, poderosa tropa de elite da Guarda Revolucionária Iraniana.

Usada como instrumento da política externa iraniana, a Força Quds é análoga a C.I.A.. O nome Quds vem da palavra persa para Jerusalém, que seus combatentes prometem libertar. Fundada em 1979 pelo Aitolá Khomeini, o objetivo dos Quds é ampliar a influência do Irã no Oriente Médio.

O combatente morto Hassan Shateri passou grande parte de sua carreira nos Quds. Serviu no Afeganistão, depois Iraque. Estava onde a Força Quds estava. Foi abatido na estrada entre Damasco e Beirute, levando mísseis e milhares de combatentes Quds para defender o presidente-ditador sírio Bashar al-Assad, aliado estratégico do Irã no Oriente Médio.

Como chefe da Força Quds no Líbano, Hassan Shateri atuava ao lado do grupo terrorista Hezbollah, financiado e armado pelo Irã. Segundo um funcionário iraniano, Shateri foi morto pelo "regime sionista" — como os iranianos chamam Israel.

No funeral de Shateri, os enlutados soluçavam e alguns batiam no peito. O caixão de Hassan Shateri estava envolto pela bandeira iraniana; e na cena, além de notórios terroristas, estava o pai do finado Imad Mughniyeh, ex-comandante do Hezbollah, morto em 2008, responsável pelo atentado em Beirute que matou mais de 250 americanos em 1983.

Antes do funeral de Shateri, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, divulgou nota de louvor a Hassan Shateri: "No final, ele bebeu o xarope doce do martírio." No ethos da revolução iraniana, morrer é servir.

 

Suleimani chorou Shateri — Ajoelhado, na segunda fila do chão atapetado da mesquita, estava o Major General Qassem Suleimani, líder da Força Quds: um homem de 56 anos, de estatura pequena, com cabelos prateados, barba fechada e olhar de intensa auto-contenção.

Foi Suleimani quem enviou Hassan Shateri, seu velho e confiável amigo, para a missão na qual morreu.

Comandantes da Guarda Revolucionária, Suleimani e Shateri pertenciam a uma pequena fraternidade formada durante a “Defesa Sagrada”, o nome dado à Guerra Irã-Iraque (1980 a 1988) na qual morreram 1 milhão de pessoas.

A Guerra Irã-Iraque marcou o início do “Eixo de Resistência”. A idéia é construir uma esfera de influência politica do Irã por todo o Iraque, Síria até o Mediterrâneo. Para tal, Irã formalizou aliança com a Síria e o Líbano, em uma resistência militar contra as potências sunitas (dominantes na região) e o Ocidente.

Na atual Guerra da Síria, a manutenção dessa resistência estava em jogo. E foi em nome dessa resistência que Qassem Suleimani partiu para uma luta desesperada, sem calcular o preço pelo aumento do sectarismo que gerou mais conflitos na região já conflituosa.

Suleimani assumiu o comando da Força Quds há quinze anos. Nesse tempo procurava modelar o Oriente Médio em favor do Irã, trabalhando como corretor de poder com força militar. Seus objetivos: 1) assassinar rivais; 2) armar aliados; e 3) dirigir uma rede de grupos milicianos.

Por causa dessa atuação invisível nas sombras, mesmo quando dirigia diretamente agentes e operações, os Estados Unidos classificou Qassem Suleimani como alvo. "Suleimani é o agente mais poderoso do Oriente Médio hoje", disse John Maguire, ex-oficial da CIA no Iraque, "e ninguém nunca ouviu falar dele."

Quando Suleimani aparece em público, em eventos de veteranos ou encontros com o Líder Supremo do Irã aiatolá Khamenei, ele é sempre discreto; raramente levanta a voz. Tem como característica o que os árabes chamam de “khilib” ou carisma discreto. "Ele é baixinho, mas tem presença", diz um ex-alto funcionário iraquiano. "Quando entra em uma sala, onde já estão pessoas, não senta ao lado de ninguém. Procura um canto vazio, para ficar sozinho e tranquilo. Não fala, não comenta, apenas senta e escuta. E mesmo assim, sua presença não é ignorada."

No funeral do amigo Shateri, Suleimani vestia jaqueta preta com camisa preta sem gravata, no estilo iraniano. Seu rosto longo e angular e suas sobrancelhas arqueadas expressavam dor. A Força Quds nunca tinha perdido um oficial tão alto.

Um dia antes do funeral, Suleimani foi s casa de Shateri oferecer condolências à família. Suleimani tem apego aos soldados martirizados; e muitas vezes visita suas famílias. Em entrevista recente a mídia iraniana, disse: "Quando vejo os filhos dos mártires, eu me perco, quero sentir o cheiro deles."

Durante o funeral, Suleimani e os outros enlutados curvaram-se para orar, pressionando suas testas no tapete. Quando o influente clérigo Alireza Panahian, falou sobre Shateri — “Uma das pessoas mais raras, que trouxe a revolução e o mundo inteiro para você, se foi." —, Suleimani começou a chorar.

 

Irã na Síria — Os primeiros meses de 2013 não foram bons para a intervenção militar iraniana na Síria. O regime Assad constantemente perdeu terreno para os rebeldes controlados por sunitas, rivais do Irã. Se Assad caísse, o regime iraniano perderia sua ligação com o Hezbollah, base avançada contra Israel. Por isso, durante o funeral de Shateri, um clérigo iraniano disse: "Se perdermos a Síria, não poderemos manter Teerã.".

Mesmo enfrentando sanções americanas, impostas para impedir o desenvolvimento de armas nucleares, os iranianos foram incansáveis nos esforços para salvar o regime Assad.

Entre outras coisas, emprestaram 7 bilhões de dólares para fortalecer a economia síria. "Eu não acho que os iranianos estão calculando isso em termos de dólares", disse um funcionário de segurança do Oriente Médio. "Eles consideram o fim de Assad como ameaça existencial."

Para Suleimani, salvar Assad era questão de orgulho, especialmente para distinguir-se dos americanos. “Suleimani nos disse que o Irã fará pela Síria o que for necessário", contou um ex-líder iraquiano. "Nós não somos como os americanos. Nós não abandonamos nossos amigos”, teria dito Suleimani.

No ano passado (2012), Suleimani pediu aos líderes curdos no Iraque permissão para abrir uma rota de abastecimento através do norte do Iraque até a Síria. Durante anos, Suleimani intimida os curdos a cooperarem com seus planos, mas desta vez eles rejeitaram.

Outro problema era a qualidade dos soldados de Assad, que não lutavam ou, quando o faziam, massacravam principalmente civis, levando a população da Síria a apoiar os rebeldes”, acrescentou a fonte, ainda contando que Suleimani teria dito a um político iraquiano: “O Exército sírio é inútil”.

Suleimani queria na Síria os combatentes da Basij, milícia que esmagou as revoltas contra o regime iraniano em 2009. "Dê-me uma brigada do Basij e conquistarei todo o país", teria dito Suleimani.

Em agosto de 2012, rebeldes anti-Assad capturaram 48 iranianos peregrinos dentro da Síria. Estavam indo orar no santuário sagrado xiita. Líderes iranianos protestaram, mas os rebeldes sunitas, bem como agências de inteligência ocidentais, alegaram que os peregrinos eram membros da Força Quds. E forçaram a troca dos 48 iranianos por mais de dois mil rebeldes prisioneiros. Assad cedeu.

 

Comando solitário — Sem Shateri, a partir de fevereiro último, Suleimani começou a voar para Damasco com freqüência, assumindo pessoalmente o controle da intervenção iraniana. "Ele está comandando a guerra sozinho", disse um oficial de defesa americano.

Em Damasco, Suleimani trabalha em um posto de comando fortemente fortificado. Fica em um prédio anódino, onde está a matriz multinacional de oficiais das forças armadas sírias, do Hezbollah e demais milícias.

Sem os Basij, Suleimani buscou outro companheiro da Guerra Irã-Iraque, o brigadeiro-general Hossein Hamedani, ex-vice-comandante do Basij, experiente na gestão de milícias tipo irregulares que os iranianos montam na Síria.

No final do ano passado (2012), autoridades ocidentais notaram o aumento de voos entre Teerã e Damasco. Em vez do usual punhado de aviões por semana, os aviões chegavam de Teerã todos os dias, carregando armas, munições e combatentes — "toneladas deles", disse um oficial de segurança do Oriente Médio.

Milhares agentes da Força Quds foram espalhados por toda Síria. Segundo autoridades americanas, os iranianos cooperaram com ataques, treinaram milícias e monitoraram as comunicações rebeldes anti-Assad. Também unificaram os vários ramos dos serviços de segurança de Assad — projetados para espionar uns aos outros.

A situação mudou pro-Assad em abril, depois da retomada da cidade síria de Qusayr, perto da fronteira libanesa.

Para retomar a cidade, Suleimani contou com Hassan Nasrallah do Hezbollah, que enviou mais de dois mil combatentes. Suleimani e Nasrallah são velhos amigos

Qusayr fica na entrada do Vale do Bekaa, principal canal para passagem de mísseis e outros materiais para o Hezbollah. Se a estrada continuasse fechada, o Hezbollah teria dificuldade em sobreviver.

De acordo com Will Fulton, especialista em Irã do American Enterprise Institute, os combatentes do Hezbollah cercaram Qusayr, cortando as estradas. Dezenas foram mortos, assim como oito oficiais iranianos. Em 5 de junho, a cidade caiu. "Toda a operação foi orquestrada por Suleimani", disse Maguire, “Foi uma grande vitória para ele."

 

Comandante aos 20 — No Irã, Suleimani é herói de guerra com imagem irrepreensível. Em público, ele é teatralmente modesto. Já rechaçou os que tentaram beijar sua mão. Descreveu-se a imprensa iraniana, como "o menor soldado".

Suleimani tornou-se comandante de divisão com apenas 20 anos, contudo, além do talento militar, seu poder está principalmente não estreita relação com Khamenei, o Líder Supremo do Irã, que referiu-se a Suleimani como "mártir vivo da revolução".

Suleimani integra a linha-dura do regime autoritário do Irã. Em julho de 1999, no auge dos protestos estudantis em Teerã, assinou carta-alerta ao então presidente reformista Mohammad Khatami, cobrando providências contra a revolta; do contrário os militares agiriam, possivelmente depondo Khatami. "Nossa paciência acabou", escreveu e assim os estudantes foram mais uma vez esmagados.

O governo do Irã é intensamente turbulento. Há muitas figuras em torno do chefe Khamenei, mas poucos com o prestígio de Suleimani. "Ele tem laços com todos os cantos do sistema", disse Meir Dagan, ex-chefe do Mossad. "Ele é o que eu chamo de politicamente inteligente. Se relaciona com todos."

Outros oficiais descrevem Suleimani como um crente no Islão. Enquanto muitas figuras da Guarda Revolucionária enriqueceram, através do controle das indústrias iranianas, Suleimani leva vida de burocrata na meia-idade. "Ele se levanta às quatro da manhã, dorme nove e meia todas as noites; tem uma próstata ruim e dores nas costas recorrentes; é respeitoso com sua esposa, às vezes a leva em viagens longas; tem três filhos e duas filhas; é um pai rigoroso, mas amoroso”, contam. Suleimani está especialmente preocupado com a filha Nargis, que vive na Malásia. "Ela está se desviando dos caminhos do Islã", disse o funcionário do Oriente Médio.

"Suleimani é um cara muito mais polido do que a maioria. Ele pode se mover nos círculos políticos, mas também tem a substância para ser intimidante”, diz Maguire. “Embora tenha muita leitura, seus gostos estéticos são estritamente tradicionais. Eu não consigo vê-lo a escutar música clássica. Essa coisa europeia, não é a sua vibe”, completa.

De fato, Suleimani teve pouca educação formal, mas “ele é um estrategista muito astuto e assustadoramente inteligente." Sua estratégia inclui pagamento de propina para políticos em todo o Oriente Médio; intimidação quando necessário; e assassinato como último recurso.

 

Deveria ser assassinado — Ao longo dos anos, a Força Quds construiu uma rede internacional de militantes ativos, muitos deles retirados da diáspora iraniana. "Eles estão em toda parte", disse um oficial de segurança do Oriente Médio.

Em 2010, Força Quds e Hezbollah lançaram nova campanha contra alvos americanos e israelenses em retaliação contra a interferência ao programa nuclear iraniano, que incluiu ataques cibernéticos e assassinatos de cientistas iranianos.

Nos últimos dois anos, Suleimani orquestrou sozinho uns 30 ataques em lugares distantes como Tailândia, Nova Deli, Lagos e Nairobi, contudo, o atentado mais notório não aconteceu.

Foi em 2011. Um cartel mexicano foi contratado para explodir o embaixador saudita nos Estados Unidos em um restaurante a poucos quilômetros da Casa Branca em Washington. O plano não deu certo, porque o membro do cartel contratado por Suleimani virou informante da Agência Antidrogas dos EUA.

Na opinião de alguns, a Força Quds é mais eficaz perto de casa. Os planos fora de casa não deram muito certo.

Em audiência no Congresso norte-americano, funcionários de Estado começaram a defender o assassinato de Suleimani: “Suleimani viaja muito"; “Ele está em todo o lugar”; “Vamos buscá-lo, capturá-lo ou matá-lo."

No Irã, mais de 200 signatários assinaram indignados carta em defesa de Suleimani e uma campanha de mídia social proclamou: "Somos todos Qassem Suleimani".

Entre espiões no Ocidente, Suleimani está posto em uma categoria especial. É inimigo odiado e admirado.

Vários funcionários do Oriente Médio, alguns dos quais conheço há décadas, pararam de falar quando perguntei sobre Suleimani. "Nós não queremos ter qualquer parte nisso", disse um funcionário curdo no Iraque.

Quando liguei para Meir Dagan e mencionei o nome Suleimani, houve uma longa pausa na linha. "Ah", disse ele, "um amigo muito bom”, em tom cansado.

Em março de 2009, na véspera do Ano Novo iraniano, Suleimani liderou um grupo de veteranos da Guerra Irã-Iraque para as Colinas Paa-Alam, um promontório rochoso e estéril. Em 1986, Paa-Alam foi palco de uma das mais terríveis batalhas na Península de Faw, dezenas de milhares de homens morreram. Um vídeo da visita mostra Suleimani no topo da montanha, contando a batalha. Em uma voz suave, ele narra o acontecimento usando fundo musical e orações.

"Esta é a Estrada Dasht-e-Abbas", diz Suleimani, apontando para o vale. "Esta área estava entre nós e o inimigo." Às margens de um riacho, Suleimani lê em voz alta o nome dos soldados iranianos mortos, com voz tremendo de emoção. A um entrevistador, descreve a luta em termos quase místicos: “O campo de batalha é o paraíso perdido da humanidade. Paraíso em que a moralidade e a conduta humana estão no seu ponto mais alto", diz. "O paraíso que os homens imaginam é sobre córregos, donzelas bonitas e paisagem exuberante. Mas há outro tipo de paraíso, o campo de batalha."

 

Levantador de pesos — Suleimani nasceu em Rabor, aldeia pobre situada em uma montanha no leste do Irã.

Quando ele era menino, viu seu pai pegar um empréstimo agrícola do governo do Xá Rezā Pahlavi sem poder pagar, como muitos outros agricultores. Em seu livro de memórias, Suleimani escreveu sobre como foi sair de casa cedo para conseguir trabalho, dinheiro e limpar a dívida de sua família. “À noite, não conseguíamos dormir tristes de pensar que agentes do governo vinham prender nossos pais", escreveu.

Suleimani partiu ao lado de Ahmad, seu parente em situação semelhante. Juntos, viajaram para Kerman, cidade mais próxima.

"Tínhamos apenas 13 anos, éramos tão pequenos, que onde fôssemos, não nos contratavam", escreveu. "Até que fomos contratados como trabalhadores em um canteiro de obras de uma escola. Ganhamos por dia a diária de um homem e dividíamos por dois."

Oito meses depois, a dupla economizou dinheiro suficiente. Mas era inverno e a neve dificultava o retorno para casa. É quando Suleimani encontra-se com o motorista que marcou sua vida.

Chamava-se Pahlavan ("Campeão"), "homem muito forte que levantava uma vaca ou um burro com os dentes." Na viagem de volta para casa, sempre que o carro ficava preso, " Pahlavan levantava o jipe e colocava de lado!"

No texto romanceado de Suleimani, Pahlavan é um ardente inimigo do Xá. É quem diz pela primeira vez aos dois meninos que tornariam-se revolucionários: "Este é o momento para vocês brincarem, não trabalharem como trabalhadores em uma cidade estranha. Eu cuspo na vida que o Xá fez para nós!"

Quando chegaram em casa, as luzes da aldeota estavam se acendendo. A notícia da volta foi espalhada e “em nossa aldeia, houve pandemônio”.

Quando jovem, Suleimani deu poucos sinais de ambição. De acordo com Ali Alfoneh, especialista em Irã na Fundação para Defesa das Democracias, Suleimani tinha apenas uma educação secundária; trabalhou para o departamento municipal de água de Kerman. Longe do trabalho, passava horas levantando pesos em academias locais, que ofereciam treinamento físico e inspiração para o espírito guerreiro.

Durante um Ramadã, assistiu sermões do pregador itinerante chamado Hojjat Kamyab — um protegido do aiatolá Khomeini —, de quem escuta e lhe inspira a possibilidade da revolução islâmica.

Em 1979, Suleimani tinha 20 anos. O regime do Xá caiu através da revolta popular liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini em nome do Islã. Varrido pelo fervor revolucionário, Suleimani junta-se à Guarda Revolucionária, força paramilitar criada pela nova liderança clerical do Irã para impedir que os tradicionais militares iranianos montassem um golpe. Embora sem treinamento, com um curso de 45 dias, Suleimani foi enviado para o noroeste do Irã, onde ajudou a esmagar uma revolta da etnia curda.

Quando a revolução de Khomeini completou 18 meses de idade, Saddam Hussein enviou o exército iraquiano para varrer a fronteira iraniana, para tirar proveito do caos interno no Irã. O tiro saiu pela culatra, porque a invasão de Saddam serviu para solidificar a liderança de Khomeini e unificou o país em resistência, iniciando uma guerra brutal e arraigada.

Nessa época, Suleimani comandava uma divisão na vanguarda, mas sua missão era muito simples: fornecer água para os soldados da linha de frente. Da linha de frente ele nunca saiu. "Entrei na guerra em uma missão de 15 dias e acabei ficando até o fim", disse. Uma fotografia da época mostra Suleimani jovem vestido com uniformes verdes, sem insígnias de patente, seus olhos negros focados em um horizonte distante. "Éramos todos jovens e queríamos servir a revolução", disse em 2005.

Na rádio iraquiana, Suleimani ficou conhecido como "o ladrão de cabras", porque sempre voltava com cabras abatidas e grelhadas durante as batalhas. Mesmo assim, Suleimani foi ganhando reputação de bravura e élan, especialmente pelo resultado nas missões de reconhecimento empreendidas atrás das linhas iraquianas. "Mesmo os iraquianos, nossos inimigos, o admiravam por isso", disse-me um ex-oficial da Guarda Revolucionária desertado nos Estados Unidos. Em reconhecimento a sua eficácia, Alfoneh disse, Suleimani foi colocado no comando de uma brigada de Kerman, com homens dos ginásios onde levantava pesos.

O exército iraniano estava muito superado. Seus comandantes usavam a táticas grosseiras e caras. Os ataques de "onda humana" perpetrados enviaram milhares de jovens iranianos diretamente para mira das linhas iraquianas, muitas vezes para limpar campos minados, e assim muitos morreram à taxas elevadas.

Suleimani angustiava-se com a perda de vidas. Antes de enviar seus homens para a batalha, ele abraçava um a um e se despedia. Nos discursos de preleção, elogiava os soldados martirizados e a eles implorava perdão por também não ter sido martirizado.

Quando os militares superiores anunciaram planos para atacar a Península de Faw, Suleimani chamou de desperdício e imprudência. Esse ex-oficial da Guarda Revolucionária lembrou ter visto Suleimani em 1985, após uma batalha em que sua brigada sofreu muitas mortes e muitos ficaram feridos. Ele estava sentado sozinho em um canto da tenda. "Ele ficou em silêncio, pensando nas pessoas que tinha perdido".

Em pelo menos uma ocasião, o próprio Suleimani foi ferido. Ainda assim, não perdeu o entusiasmo por seu trabalho.

 

Recrutador — Na década dos anos 1980, Reuel Marc Gerecht era então um jovem oficial da CIA em Istambul, Turquia, onde Suleimani recrutava milhares iranianos em diáspora. "Lá, você tinha toda uma variedade de possíveis soldados", disse Gerecht, que escreve extensivamente sobre o Irã. "Você pegaria clérigos, pegaria pessoas que vinham para respirar, pegar prostitutas e cair na bebida." Gerecht dividiu os veteranos em dois grupos. "Havia o quebrado, o queimado, os de olhos ocos, os caras que haviam sido destruídos", disse, “E depois havia os caras de olhos brilhantes que mal podiam esperar para voltar para a frente. Eu colocaria Suleimani na última categoria."

Ryan Crocker, embaixador americano no Iraque de 2007 a 2009, tem sentimento semelhante. Durante a Guerra do Iraque, Crocker às vezes lidava com Suleimani indiretamente, através de líderes iraquianos que frequentavam Teerã. Certa vez, Crocker perguntou a um dos iraquianos se Suleimani era especialmente religioso. A resposta foi "Não por isso. Ele frequenta a mesquita periodicamente, contudo, a religião não o impulsiona. O nacionalismo o impulsiona, e o amor à luta."

O Irã aprendeu duas lições da Guerra Irã-Iraque. A primeira, que estava cercado por inimigos, perto e longe.

Quando em 1980 Saddam preparava a invasão do Irã, autoridades americanas sabiam e mais forneceram ao ditador iraquiano informações que foram usadas em ataques com armas químicas — armas fabricadas com a ajuda de indústrias da Europa Ocidental.

A memória desses ataques químicos de Saddam é especialmente amarga. "Você sabe quantas pessoas ainda estão sofrendo com os efeitos das armas químicas?", pergunta Mehdi Khalaji, membro do Instituto de Política do Oriente Próximo. "Milhares de ex-soldados iranianos acreditam que estas armas ocidentais foram dadas a Saddam”, induz.

Em 1987, durante a batalha com exército iraquiano, a divisão sob comando de Suleimani foi atacada por projéteis de artilharia contendo armas químicas. Mais de uma centena de seus homens sofreram os efeitos.

A segunda lição extraída da Guerra Irã-Iraque foi a futilidade de lutar um confronto frente a frente. Em 1982, depois dos iranianos expulsarem iraquianos, o aiatolá Khomeini ordenou que seus homens continuassem a lutar até "libertar" todo o Iraque e avançar para Jerusalém. Seis anos e centenas de milhares de vidas depois, Khomeini concordou em cessar-fogo.

Esse toque de avançar seguido por um súbito toque de recolher, marcou a geração dos generais comandantes de soldados como Suleimani. Quase todos acreditam que poderiam ter conseguido, se Khomeini não tivesse vacilado. "Muitos deles sentiram-se como esfaqueados nas costas", disse. "Eles têm nutrido este mito por quase trinta anos”, complementa.

Os líderes clericais do Irã não queriam outro banho de sangue. Em vez disso, queriam desenvolver a capacidade de travar guerras assimétricas — atacando nações mais fortes indiretamente, fora do Irã. E assim a Força Quds virou o instrumento dessa política.

 

Homem Quds — Aiatolá Khomeini criou o protótipo da Força Quds ainda em 1979, com o objetivo de proteger o Irã e exportar a Revolução Islâmica.

A primeira grande oportunidade veio no Líbano, em 1982, para onde a Força Quds foi enviada para organizar milícias na guerra civil libanesa. Essa ação resultaram na criação do Hezbollah sob orientação iraniana.

O comandante do Hezbollah, Imad Mughniyeh, formou o que ficou conhecido como Aparato Especial de Segurança, ala do Hezbollah que trabalha em estreita colaboração com a Força Quds.

Com a ajuda do Irã, o Hezbollah orquestrar ataques às embaixadas americanas e aos quartéis militares franceses e americanos. "Nos primeiros dias, quando o Hezbollah era totalmente dependente da ajuda iraniana, Mughniyeh e outros eram basicamente ativos iranianos", diz David Crist, historiador das forças armadas dos EUA e autor de "A Guerra do Crepúsculo".

Apesar da agressividade do regime iraniano, parte do seu zelo religioso parecia maior. Em 1989, aiatolá Khomeini parou de incitar iranianos a espalhar a revolta, e conclamou o povo preferivelmente a preservar seus ganhos. O interesse próprio foi a ordem do dia na antiga Pérsia, mesmo que fosse indistinguível do fervor revolucionário.

Naqueles anos, Suleimani trabalhava ao longo da fronteira oriental do Irã, ajudando rebeldes afegãos contra os talibãs. Em uma zona que gera corrupção, Suleimani fez seu nome lutando contra contrabandistas de ópio na fronteira afegã.

Os Talibãs perseguiam à minoria xiita no Afeganistão. Os dois países quase entraram em guerra. O Irã chegou a mobilizar 250 mil homens em tropas e os talibãs foram denunciaram como afronta ao Islã.

Em 1998, Suleimani foi nomeado chefe da Força Quds, transformando a agência em organização de alcance extraordinário, com filiais focadas em inteligência, finanças, política, sabotagem e operações especiais. Baseada no antigo complexo da embaixada dos EUA em Teerã, os Quds têm cerca de 20 mil membros, divididos entre combatentes, treinadores e supervisores. São escolhidos por habilidade e fidelidade à doutrina da Revolução Islâmica, bem como por suas conexões familiares.

De acordo com o jornal Israel Hayom, os combatentes são treinados em Shiraz e Teerã, doutrinados no Jerusalem Operation College, em Qom, e depois enviados em missões de meses no Afeganistão e Iraque para ganhar experiência operacional de campo. Geralmente viajam como trabalhadores na construção civil iraniana.

Depois de assumir o comando, Suleimani fortaleceu as relações no Líbano, via Mughniyeh e Hassan Nasrallah, chefes do Hezbollah. Até então, os militares israelenses ocuparam o sul do Líbano por 16 anos, e o Hezbollah estava ansioso para assumir o controle do país. "Eles tinham uma enorme presença de formação, aconselhamento, planejamento", disse Ryan Crocker, acrescentado que o jogo é longo. “Em 2000, quando os israelenses se retiraram do Líbano, exaustos, exemplifica como Síria e Irã podem jogar um jogo longo, sabendo que não podemos."

O regime iraniano ajuda muitos grupos islâmicos que se opõem aos aliados da América na região, como Arábia Saudita e Bahrein. A ajuda não vai só para xiitas, mas também para sunitas como o Hamas. Há um arquipélago de alianças de Bagdá a Beirute. "Ninguém em Teerã começou fez um plano mestre para o Eixo da Resistência. As oportunidades se apresentaram", disse-me um diplomata ocidental em Bagdá. "Em cada caso, Suleimani foi mais inteligente, mais rápido e com melhores recursos do que qualquer outra pessoa na região. Ao aproveitar as oportunidades como vieram, ele construiu a coisa lentamente, mas de forma segura."

 

O amigo americano — Nos dias caóticos após os ataques de 11 de setembro, Ryan Crocker, então alto funcionário do Departamento de Estado norte-americano, voou discretamente para Genebra para encontrar diplomatas iranianos. "Ficávamos acordados a noite toda naquelas reuniões”, disse Crocker.

Parecia claro para Ryan Crocker que os iranianos falavam em nome de Suleimani, a quem chamavam de "Haj Qassem". Estavam ansiosos para ajudar os Estados Unidos a destruir o inimigo mútuo, os Talibãs.

Apesar dos Estados Unidos e Irã terem rompido relações diplomáticas em 1980 (quando diplomatas americanos foram feitos reféns em Teerã), Ryan Crocker não ficou surpreso ao descobrir que Suleimani era flexível. "Você não vive oito anos em guerra brutal sem ser bastante pragmático", conta.

Suleimani passava mensagens para Crocker, mas evitava colocar qualquer coisa por escrito. "Haj Qassem é muito inteligente para isso", disse Crocker. "Ele não vai deixar rastros de papel para os americanos."

Antes do bombardeio aos Talibãs começarem, Crocker sentiu que os iranianos estavam impacientes com a administração Bush, devido a demora do atacar aos talibãs no Afeganistão. Em reunião no início de outubro de 2001, o principal negociador iraniano levantou-se e gritou: "Se vocês não pararem de construir esses governos de conto de fadas no céu e começarem a fazer algo no chão, nada vai acontecer! Quando você estiver pronto para falar sobre uma luta séria, você sabe onde me encontrar." E saiu da sala.

Em um momento negligenciado pela história, o negociador iraniano entregou a Crocker um mapa detalhando a localização das forças talibãs. "Aqui está o nosso conselho: atingi-los aqui primeiro, e depois atingi-los aqui. Esta é a lógica." Atordoado, Crocker perguntou: "Posso tomar notas?" O negociador respondeu: "Você pode ficar com o mapa."

Em outra ocasião, ele deu aos homólogos a localização de um facilitador da Al Qaeda que vivia na cidade oriental de Mashhad, disse Crocker. Os iranianos o detiveram e o levaram para os novos líderes do Afeganistão, que o entregaram aos EUA. O negociador disse a Crocker: “Haj Qassem está muito satisfeito com a nossa cooperação."

A cooperação entre os dois países (Estados Unidos e Irã) existiu a fase inicial da guerra dos Estados Unidos no Afeganistão. O fluxo de informações serviu aos dois lados. Mas a boa vontade não durou.

Em janeiro de 2002, Crocker, então o vice-chefe da embaixada americana em Cabul, foi acordado por assessores para assistir o tradicional Discurso de Estado da União do então presidente George W. Bush, nomeando o Irã como parte do "Eixo do Mal". Como muitos outros diplomatas, Crocker foi pego desprevenido.

No dia seguinte, na sede da ONU em Cabul, Crocker encontrou o negociador iraniano furioso: “Você me prejudicou completamente. Suleimani está rasgando raiva. Ele também se sente prejudicado." O negociador disse a Crocker que Suleimani correu grande risco político, porque estava defendendo de forma aberta uma reavaliação completa dos Estados Unidos: "Talvez seja hora de repensar nossa relação com os americanos”, teria dito Suleimani no Irã.

O discurso de George Bush sobre o Eixo do Mal pôs fim às reuniões de entendimento. E calou os reformadores dentro do governo iraniano, que defendiam a aproximação com os Estados Unidos. Recordando esse tempo, Crocker balançou a cabeça lamentando. "Estávamos tão perto", disse. "E uma palavra em um discurso mudou a história”, lamentou.

Antes das reuniões desmoronarem, Crocker conversou com o negociador iraniano sobre a possibilidade de guerra no Iraque. "Olha, não sei o que vai acontecer, mas eu tenho alguma responsabilidade com o Iraque. É o meu portfólio e eu posso ler os sinais. Eu acho que nós vamos entrar”, conta Crocker.

Os iranianos desprezavam Saddam, e Crocker achava que eles estariam dispostos a trabalhar com os EUA "Eu não era um fã da invasão", disse Crocker. "Mas fiquei pensando. Se vamos fazê-lo, vamos transformar um inimigo em amigo, pelo menos taticamente."

O negociador iraniano indicou que o Irã estava disposto a cooperar. O Iraque, como o Afeganistão, integrava o mesmo interesse.

Depois da invasão do Iraque, em março de 2003, as autoridades iranianas mandaram para os americanos N juras de paz. Muitos no Irã assistiram a derrubada dos regimes no Afeganistão e no Iraque convencidos de que eram os próximos.

“Eles estavam com medo de merda", conta John Maguire, o ex-oficial da CIA em Bagdá. "Enviaram muitos mensageiros os nossos oficiais dizendo: nós não queremos problemas com vocês”.

Contudo, nesse mesmo ano, 2003, os americanos identificaram que o Irã fazia planos para desenvolver lenta e secretamente uma arma nuclear.

Depois do fim do regime Saddam no Iraque, Crocker foi enviado a Bagdá para organizar o novo governo, chamado Conselho Governante Iraquiano. De cara, Crocker percebeu que muitos políticos iraquianos voavam a Teerã para consultas. E assim, aproveitou a chance de negociar indiretamente com Suleimani mais uma vez.

No decorrer do verão, Crocker enviou a Suleimani nomes de potenciais candidatos xiitas para compor o novo governo. Oficialmente, Suleimani não tinha poder de veto, mas Crocker descartava os nomes vetados por Suleimani. "A formação do conselho do governo foi uma negociação entre Teerã e Washington", disse Crocker.

 

Você quer morrer? — A formação do novo governo iraquiano foi o ponto alto da cooperação iraniano-americana. "Depois que formamos o conselho do governo, tudo entrou em colapso", disse Crocker. Suleimani passou a comandar a sabotagem. Muitos americanos e iraquianos entrevistados pensaram que a mudança de estratégia era o resultado do oportunismo: os iranianos tornaram-se agressivos quando o medo de uma invasão americana começou a recuar.

Durante anos, Suleimani cultivou milícias no Iraque depois que Saddam caiu. Ele já tinha uma força de combate no lugar: a Brigada Badj, ala armada de um partido político chamado Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque. Os Badj eram velhos aliados, lutaram ao lado do Irã na Guerra Irã-Iraque dos anos 1980.

A Brigada Badj passou a maior parte de seu tempo realizando assassinatos por vingança contra baathistas. Os Badj mantiveram o fogo contra os americanos, mas coube a outra milícia, também apoiada pelo Irã, o Exército Mahdi, liderado pelo clérigo populista Moqtada al-Sadr, o confronto direto com os americanos.

A conclusão foi que Suleimani achou os Badj imprevisíveis e difíceis de gerenciar, e começou a organizar outras milícias dispostas a atacar os americanos. O controle de Suleimani sobre milícias iraquianas parecia ser total.

Em agosto de 2004, depois dos americanos lançarem uma contra-ofensiva sangrenta, andei por um cemitério improvisado na cidade sagrada de Najaf, sul de Bagdá. Encontrei dezenas de sepulturas rasas marcadas por um pequeno frasco de vidro com um pedaço de papel com o nome e o endereço do combatente morto. Muitos deles eram de Teerã.

Corroborando com a tese que o Irã sabotava o novo governo no Iraque, um alto funcionário iraquiano, em Washington, culpou publicamente o Líder Supremo do Irã pela escalada da violência no Iraque. Depois de voltar a Bagdá, ele recebeu mensagens de duas milícias iraquianas com a mesma pergunta: Você quer morrer?

Em 2004, a Força Quds inundou o Iraque com bombas letais nas estradas. Os americanos chamaram essas bombas de EFP — Explosively Formed Penetrator ou projéteis formados por explosão.

As EFP disparavam cobre fundido capaz de furar blindados. E começaram a causar estragos nas tropas americanas, representando quase 20% das mortes em combate. Uma E.F.P. só poderia ser feita por técnicos qualificados. Eram acionadas por sensores de movimento sofisticados. "Não havia dúvida de onde estavam vindo", disse-me o General Stanley McChrystal, na época chefe do Comando Conjunto de Operações Especiais. "Sabíamos onde estavam todas as fábricas no Irã. Os E.F.P. mataram centenas de americanos."

No início da guerra da Síria, autoridades iraquianas me disseram que Suleimani incentivou o regime de Assad a facilitar o movimento de extremistas sunitas através da Síria para lutar contra os americanos. Em muitos casos, a Al Qaeda também foi autorizada. Cruzava com certo grau de liberdade a Síria e o Irã também.

Ryan Crocker conta que em maio de 2003, os americanos receberam informações de que os combatentes da Al Qaeda no Irã preparavam ataques contra alvos ocidentais na Arábia Saudita. Crocker ficou alarmado. Eles estavam lá, com proteção iraniana, planejando operações. E voou a Genebra para alertar os iranianos. Sem sucesso; os sunitas da Al Qaeda bombardearam três complexos residenciais em Riade, mataram 35 pessoas, nove americanos.

Contudo, a estratégia iraniana de cumplicidade com extremistas sunitas saiu pela culatra, porque os mesmos extremistas começaram a atacar civis xiitas e o governo iraquiano dominado pelos xiitas. Foi uma prévia da guerra civil que estava por vir na Síria. “Suleimani queria sangrar os americanos, então convidou os jihadistas, e as coisas saíram do controle. Bem-vindo ao Oriente Médio", disse-me um diplomata ocidental em Bagdá.

 

Dois Suleimanis — A política do Irã em relação aos americanos no Iraque não foi totalmente hostil. Os dois países estavam tentando capacitar o governo de maioria xiita no Iraque. Essa aliança criou dois Suleimani: um empenhado em negociar com os americanos e outro em matá-los.

Durante toda a guerra, Suleimani convocou líderes iraquianos a Teerã para intermediar acordos, geralmente destinados a maximizar o poder xiita. Pelo menos uma vez, ele viajou para o coração do poder americano em Bagdá. "Suleimani entrou na Zona Verde para conhecer os iraquianos", disse-me o político iraquiano. "Acho que os americanos queriam prendê-lo, mas sentiram que não podiam." Como ambos buscavam vantagens, as alianças mutáveis levaram a encontros desconfortáveis, às vezes bizarros.

Os líderes dos dois principais partidos curdos, Massoud Barzani e Jalal Talabani, reuniam-se regularmente com Suleimani e com os americanos. Embora a relação dos curdos com os EUA fosse geralmente calorosa, seus laços com líderes iranianos como Suleimani eram mais profundos e complexos, apesar de não ser uma relação de igual para igual.

Líderes curdos falaram que o objetivo de Suleimani sempre foi manter os partidos políticos do Iraque divididos e instáveis, garantindo assim que o Iraque fraco. "Para nós, é muito difícil dizer não a Suleimani", disse-me um curdo. "Quando dizemos não, ele cria problemas para nós. Bombardeios. Tiroteios. Os iranianos são nossos vizinhos. Eles sempre estiveram lá e sempre estarão. Temos que lidar com eles."

Um oficial da inteligência em Bagdá conta que foi visitar Jalal Talabani em sua casa no norte do Iraque. Quando entrou, Qassem Suleimani estava sentado lá, vestindo camisa preta e jaqueta preta. Os dois olharam-se um para o outro de cima para baixo. "Ele sabia quem eu era; eu sabia quem ele era. Apertamos as mãos, não dissemos nada. Eu nunca vi Talabani tão deferente a ninguém. Ele estava apavorado”, narra.

Após a invasão do Iraque, o famoso general Stanley McChrystal estava concentrado em derrotar insurgentes sunitas, e se absteve de perseguir agentes da Força Quds. Provocar o Irã só agravaria o conflito e muitos dos agentes iranianos operavam com cobertura diplomática.

Em janeiro de 2007, McChrystal recebeu relatos que o general Mohammed Ali Jafari, chefe da Guarda Revolucionária do Irã, poderia estar em um comboio na direção à fronteira iraquiana. De acordo com outras fontes da inteligência, Suleimani estava com ele. E um grupo de combatentes curdos esperavam para recebê-los. McChrystal permitiu que os iranianos atravessassem a fronteira. "Não queríamos entrar em um tiroteio com os curdos", disse.

Os homens de McChrystal rastrearam o comboio até a cidade curda de Erbil, quando o comboio parou em um prédio indescritível, com uma pequena placa escrita "Consulado". Ninguém sabia que tal consulado existia. Os americanos interviram e levaram cinco iranianos sob custódia. Todos carregavam passaportes diplomáticos e todos eram membros da Força Quds. Nem Suleimani nem Jafari estavam lá. Eles saíram do comboio no último minuto e refugiaram-se em uma casa segura controlada pelo líder curdo Massoud Barzani. "Suleimani teve sorte", disse-me Emir Dagan, ex-chefe do Mossad, referindo-se ao ataque. "É importante ter sorte".

Em resposta à captura dos agentes da Força Quds em Erbil, nove dias depois, cinco jovens negros usando uniformes estilo americano e falando inglês chegaram aos portões do Centro Provincial de Karbala, pularam de seus veículos e correram diretamente para o prédio onde estavam soldados americanos. Mataram um e capturaram quatro, ignorando todos os outros. Em poucas horas, os quatro prisioneiros foram mortos, baleados à queima-roupa.

O ataque foi realizado por Asa'ib Ahl al-Haq, uma das milícias apoiadas pelo Irã. As autoridades americanas especularam que Suleimani havia ordenado o ataque.

Em menos de dois meses, os americanos mataram o suposto líder do ataque e reuniram vários dos participantes. Um deles era Ali Musa Daqduq, comandante do Hezbollah treinado no Irã.

A princípio, Daqduq fingiu não poder falar, e foi apelidado de Hamid, o Mudo. Mas depois de um tempo, o Mudo começou a conversar e disse que a operação foi ordenada por autoridades iranianas. Pela primeira vez, os comandantes americanos apontaram publicamente Suleimani como cúmplice.

Em entrevista coletiva, o Brigadeiro-General Kevin Bergner disse: "A Força Quds conhecia e apoiava o planejamento do eventual ataque de Karbala que matou cinco soldados da coalizão".

Com a intensificação da guerra secreta com o Irã, as autoridades americanas consideraram atacar campos de treinamento e fábricas de bombas. "Alguns de nós queríamos muito atingi-los", disse-me um oficial americano que estava no Iraque na época. O debate durou até 2011, quando os últimos soldados americanos deixaram o país.

Na mesma época, Suleimani enviou mensagens para altas autoridades americanas — às vezes para tranquilizar, às vezes para extrair alguma informação, às vezes para zombar.

Uma das primeiras mensagens foi enviada no início de 2008, quando o presidente iraquiano, Jalal Talabani, entregou seu telefone celular com uma mensagem de texto para o general David Petraeus. “Caro general Petraeus”, dizia o texto, “Você deve saber que eu, Qassem Suleimani, controlo a política do Irã com relação ao Iraque, Líbano, Gaza e Afeganistão. E, de fato, o embaixador em Bagdá é membro da Força Quds. O indivíduo que o substituirá é um membro da Força Quds.

Sobre os cinco soldados americanos foram mortos em Karbala, Suleimani enviou uma mensagem ao embaixador americano: “Juro que no túmulo de Khomeini não autorizei uma bala contra os EUA", disse Suleimani. Nenhum dos americanos acreditou nele.

Em relatório para a Casa Branca, Petraeus escreveu que Suleimani era "verdadeiramente mau". No entanto, às vezes os dois homens estavam praticamente negociando.

De acordo com informações diplomáticas reveladas pelo WikiLeaks, Petraeus enviou mensagens a Suleimani, pedindo que a intermediação de um cessar-fogo contra bases americanas com as milícias que Suleimani controlava. Em 2008, os americanos estavam em ofensiva contra o exército Mahdi, milícia de Moqtada al-Sadr. Suleimani sentiu a abertura política e enviou a Petraeus mensagem lamentando a situação, dizendo ter designado homens para prender os agressores. Petraeus respondeu: "Nasci no domingo, mas não foi no domingo passado." Eventualmente, Suleimani intermediou um cessar-fogo entre Sadr e o governo.

Suleimani parecia ter prazer em insultar os americanos, e histórias de suas provocações se espalhavam. No verão de 2006, durante a guerra de 34 dias entre Israel e o Hezbollah no Líbano, a violência em Bagdá diminuiu. Quando o conflito terminou, Suleimani supostamente enviou a seguinte mensagem ao comando americano. "Espero que você tenha desfrutado da paz e tranquilidade em Bagdá. Estava ocupado em Beirute”.

 

A mão do gatilho Hezbolah — Em um discurso em 1990, Khamenei disse que a missão da Força Quds é "estabelecer células populares do Hezbollah em todo o mundo". Embora esse objetivo não tenha sido alcançado, o Hezbollah tornou-se a força mais influente no Líbano, com poder militar e político que quase substitui o estado.

Alguns especialistas da região acreditam que o Hezbollah tornou-se menos dependente do Irã à medida que amadureceu. Mas, em um jantar em Beirute no ano passado, Walid Joumblatt, político libanês, reclamou que os líderes do Hezbollah ainda estavam escravizados com Teerã. "Você tem que sentar e conversar com eles, mas eles não decidem. São Khamenei e Qassem Suleimani que decidem. "

O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, reconhece o Líder Supremo do Irã como autoridade suprema e festeja a presença de agentes da Força Quds no Líbano. De 2000 a 2006, o Irã contribuiu com 100 milhões de dólares por ano para o Hezbollah. Seus combatentes são procuradores atraentes: ao contrário dos iranianos, eles falam árabe, tornando-os mais bem equipados para operar na Síria e em outras partes do mundo árabe.

Trabalhando com os iranianos, eles lançaram ou se prepararam para lançar ataques em Chipre, Azerbaijão e Turquia. Mas nem sempre agem juntos. Depois que um agente do Hezbollah atacou um ônibus de turismo cheio de israelenses na Bulgária, em julho de 2012, autoridades americanas descobriram que Suleimani perguntou a subordinados: "Alguém sabe disso?" Ninguém sabia. “O Hezbollah agiu por conta própria nesse caso", disse-me um oficial de defesa americano.

A Força Quds parece estar envolvida em vários momentos significativos da história recente do Líbano. Em 2006, Nasrallah ordenou o sequestro de soldados israelenses. A operação foi realizada com a ajuda de Suleimani. Na sequência, aconteceu uma guerra breve, mas feroz, na qual as forças de defesa de Israel destruíram grande parte do Líbano. “Não acho que Suleimani esperava essa reação", disse a autoridade.

A questão da influência iraniana no Líbano ressurgiu em 2011, quando o Tribunal Especial do Líbano, apoiado pelas Nações Unidas, acusou quatro membros do Hezbollah de assassinar o ex-primeiro-ministro libanês, Rafik Hariri, em 2005.

Hariri, um sunita, tentava tirar o Líbano da órbita iraniano-síria. No dia dos namorados, ele foi morto por um caminhão-bomba que pesava mais de 2 toneladas.

Os promotores identificaram os supostos assassinos do Hezbollah por meio de "análise de localização conjunta" — comparando telefones celulares descartáveis ​​usados ​​no momento do assassinato com outros telefones pertencentes aos suspeitos. Eles se abstiveram de indiciar autoridades sírias, mas, tinham evidências convincentes do envolvimento do governo de Assad no assassinato de Hariri.

Um investigador do Tribunal libanês me disse que também havia motivos para suspeitar dos iranianos: “Nossa teoria era que o Hezbollah acionou o gatilho, mas não poderia e não teria feito isso sem a benção e o apoio logístico da Síria e do Irã. ”Um dos telefones que se acredita ter sido usado pelos assassinos fez pelo menos uma dúzia de ligações para o Irã antes e depois do assassinato. Mas os investigadores não sabiam quem estaria do outro lado da linha no Irã”; e assim não tinham elementos para convencer as agências de inteligência ocidentais a ajudá-las. Um oficial de inteligência me disse que os agentes iranianos foram ouvidos conversando minutos antes do assassinato. “Havia iranianos nos telefones dirigindo o ataque", disse. Robert Baer, ​​ex-C.I.A., também me disse: "Se de fato o Irã estava envolvido, Suleimani estava, sem dúvida, no centro disso."

Enquanto isso, os quatro suspeitos do Hezbollah no assassinato desapareceram. Um deles, Mustafa Badreddine, cunhado de Imad Mughniyeh e antigo fabricante de bombas do Hezbollah, foi flagrado na Síria pelos rebeldes, que dizem estar lutando por Assad.

 

Iraque, colônia do Irã — Em 22 de dezembro de 2010, James Jeffrey (embaixador americano no Iraque) e o general Lloyd Austin (principal comandante americano no Iraque), emitiram nota de parabéns ao povo iraquiano pela formação do novo governo, liderado pelo primeiro-ministro Nuri al-Maliki.

O Iraque ficou sem governo por nove meses, depois do impasse nas eleições parlamentares. No momento da eleição, ainda havia quase cem mil soldados americanos no país. “Estamos ansiosos para trabalhar com o novo governo de coalizão para promover nossa visão comum de um Iraque democrático", disseram no comunicado.

O que Jeffrey e Austin não disseram foi que o acordo de coalizão foi feito por Suleimani.

Nos meses anteriores, Suleimani reuniu líderes xiitas e curdos em Teerã e Qom, e extraiu deles a promessa de apoiar Maliki, seu candidato.

O acordo teve uma complexa variedade de tentações. Maliki e Assad não gostam um do outro. Suleimani os uniu através da construção de um oleoduto lucrativo do Iraque até a Síria. A fim de alinhar o clérigo Moqtada al-Sadr, Suleimani ofereceu ministérios iraquianos. E para o Irã, Suleimani conquistou o espaço aéreo iraquiano para transportar homens e munições para Damasco. O general James Mattis, que até março era comandante de todas as forças militares americanas no Oriente Médio, disse que sem essa ajuda, Assad já teria caído.

Os vôos são supervisionados pelo ministro do transporte iraquiano, Hadi al-Amri, antigo aliado de Suleimani, ex-chefe da Brigada Badr e soldado do lado iraniano na Guerra Irã-Iraque. Amri negou que os iranianos usam o espaço aéreo iraquiano para enviar armas. Mas deixou claro seu carinho pelo ex-comandante. "Eu amo Qassem Suleimani”, batendo na mesa: “Ele é meu amigo mais querido."

Até agora, o primeiro-ministro Maliki resistiu à pressão para abastecer Assad por terra, mas não impediu os vôos; a perspectiva de um regime sunita radical na Síria superou suas reservas contra Assad. “Maliki não gosta dos iranianos e detesta Assad, mas odeia Al Nusra", disse-me Crocker. “Ele não quer um governo da Al Qaeda em Damasco.”

Suleimani impôs ainda no acordo de coalisão que Jalal Talabani, amigo de longa data do Irã, fosse o presidente.

Autoridades iraquianas contam que no momento do anúncio da coalizão, os americanos já sabiam que Suleimani os havia expulsado do país, mas estavam com vergonha de admitir isso em público. “Estávamos rindo dos americanos", disse um ex-líder iraquiano, irritado ao lembrar da situação. “Foda-se! Foda-se! Suleimani os enganou completamente e, em público, eles estavam se parabenizando por unir o governo".

O acordo foi um duro golpe para Ayad Allawi, político iraniano: “Eu precisava de apoio americano. Mas eles queriam sair e entregaram o país aos iranianos. O Iraque é um estado falido agora, uma colônia iraniana.”

De acordo com ex-autoridades americanas e iraquianas, Suleimani exerce influência sobre a política iraquiana pagando às autoridades, subsidiando jornais e estações de televisão e, quando necessário, intimidando. Poucos são imunes a suas tentações. “Ainda estou pra ver um partido político xiita sem receber dinheiro de Qassem Suleimani", disse o ex-alto funcionário iraquiano. “Ele é o homem mais poderoso do Iraque, sem dúvida."

Até Maliki costuma sentir-se prisioneiro dos iranianos. Exilado por Saddam, Maliki viveu por um curto período no Irã, mas depois foi para a Síria, em parte para escapar da influência iraniana. Crocker disse que Maliki lhe confidenciou: "Você não pode saber o que é arrogância até que você seja um árabe iraquiano forçado a se refugiar com os iranianos." E o sentimento é mútuo. “Maliki diz que Suleimani não escuta. E Suleimani diz que Maliki apenas mente."

Maliki paga amplamente a Suleimani por seus esforços para torná-lo primeiro-ministro. De acordo com um ex-oficial de inteligência, o governo de Maliki está presidindo uma série de esquemas, no valor de centenas de milhões de dólares por ano, para ajudar o regime iraniano a superar as sanções econômicas ocidentais. Um importante empresário iraquiano me disse que agentes apoiados pelo Irã usam regularmente o sistema bancário iraquiano para realizar transações fraudulentas que lhes permitem vender a moeda iraquiana com enorme lucro. “Se os bancos recusarem, serão fechados pelo governo”, disse.

A outra principal fonte de receita para os iranianos é o petróleo iraquiano. O governo de Maliki reserva o equivalente a 200 mil barris de petróleo por dia (cerca de vinte milhões de dólares, a preços atuais) e envia o dinheiro para Suleimani. Dessa maneira, a Força Quds fica imune às pressões econômicas das sanções ocidentais. “É um programa de ação secreta. Suleimani não precisa do orçamento iraniano para financiar suas operações.”

Em dezembro passado, quando o regime de Assad parecia entrar em colapso, oficiais americanos avistaram técnicos sírios preparando bombas com o agente sarin para aeronaves. Tudo indicava um enorme ataque químico. Os americanos ligaram para líderes na Rússia, que ligaram para seus pares em Teerã. Segundo o oficial de defesa americano, Suleimani foi fundamental para convencer Assad a não usar armas químicas.

Os sentimentos de Suleimani sobre a ética das armas químicas são desconhecidos. Durante a Guerra Irã-Iraque, milhares de soldados iranianos sofreram ataques químicos, e os sobreviventes ainda falam publicamente do trauma. Mas algumas autoridades americanas acreditam que seus esforços para conter Assad tiveram uma inspiração mais pragmática: o medo de provocar a intervenção militar americana. "Tanto russos quanto iranianos disseram a Assad: 'Não podemos apoiar você na opinião mundial se você usar esse material'", disse um ex-oficial militar americano.

Acredita-se que o regime Assad tenha usado armas químicas pelo menos 14 vezes desde o ano passado. Mesmo depois do enorme ataque de sarin no dia 21 de agosto, que matou 1.400 civis, o apoio de Suleimani à Síria continuou inflexível.

Para salvar Assad, Suleimani apelou a todos os bens que ele construiu desde que assumiu a Força Quds: combatentes do Hezbollah, milicianos de todo o mundo árabe e todo o dinheiro e material que conseguiu extrair do governo iraniano.

Essa atmosfera fortemente sectária pode ser o impacto mais duradouro da estratégia de Suleimani no Oriente Médio. Para salvar o império iraniano na Síria e no Líbano, Suleimani ajudou a alimentar o conflito sunita-xiita que ameaça engolir a região nos próximos anos. "Suleimani tem todos os motivos para acreditar que o Irã é o poder crescente na região", disse-me o general James Mattis. “Nós nunca lhe demos um golpe no corpo.”