Crimes em queda: em dois anos, Ceará registrou, pelo menos, 913 mortes envolvendo grupos criminosos

Crimes em queda: em dois anos, Ceará registrou, pelo menos, 913 mortes envolvendo grupos criminosos

Dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social dividiram 10.033 mortes ocorridas em 2017 e 2018 em 14 possíveis motivações para os crimes

Nos dois anos mais violentos já registrados no Ceará, o envolvimento com grupos criminosos e com o tráfico de drogas foram os principais gatilhos para a matança registrada no Estado. Foram, pelo menos, 1880 crimes com essas características, conforme dados da Assessoria de Análise Estatística e Criminal (AAESC), da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), tornados públicos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

O levantamento traz informações sobre 10.033 mortes ocorridas em 2017 e 2018, os anos com os maiores números de assassinatos já registrados no Estado. Naqueles anos, o Ceará registrou, respectivamente, 5.133 e 4.518 Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs) — indicador que inclui homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. Os dados do levantamento trazem ainda, porém, mortes em decorrência de oposição à intervenção policial. Assim, são elencadas em 14 categorias as possíveis motivações para os crimes, conforme levantamento da Polícia Civil no local do crime. São causas que vão de linchamento a feminicídio, passando por queima de arquivo e política. A maioria, porém, tem motivação não informada: são 6.463 casos, o que representa 64% dos episódios computados.

Os 3.570 registros restantes, porém, permitem traçar um verdadeiro retrato do homicídio no Ceará. Em 2017, no ano em que as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Guardiões do Estado (GDE) deflagaram guerra, após quase um ano de "pacificação", foram registrados 797 mortes classificadas como com possível motivação o envolvimento com grupos criminosos. Desses, 560 somente em Fortaleza. No ano seguinte, 2018, esses registros caíram para 116 (59 em Fortaleza), acompanhando a redução de 11% no número de CVLIs naquele ano.

Os números da guerra das facções podem ficar maiores se levados em conta também os assassinatos cuja motivação foi apontada como envolvimento com tráfico de drogas. Foram 967 crimes identificados assim em 2017 e 2018 — 821 somente em 2017. Os números ficam ainda maiores, porém, se somadas à categoria "Usuário de drogas". Foram 441 mortes colocados pela SSPDS nessa categoria. Em Fortaleza, as mortes computadas como "envolvimento com tráfico de drogas" e "usuário de drogas" somam 669 nos dois anos.

 Depois de Envolvimento com grupos criminosos, com tráfico e usuário de drogas, a motivação mais comum para os crimes foi vingança: 253 casos foram registrados assim. Confronto com a Polícia, que possui excludente de ilicitude, registrou 370 episódios. Latrocínios (142), crimes passionais (124), discussão (114) e linchamentos (43) são outras motivações para crimes que se destacam. Apenas três mortes no período teriam sido causadas por política.

As estatísticas ainda mostram que as armas de fogo são absolutas no fazer o crime no Ceará. Em 87% dos casos essa foi a arma do crime. Armas brancas representam 7% dos assassinatos, enquanto outros meios, 4,9%. Em 36 casos a arma do crime não foi informada.

Reduções de homicídios em 2019 chegam a quase dois terços

Passado o pico da guerra entre as facções, o Ceará registra em 2019 o ano menos violento da década até aqui no que diz respeito a assassinatos. A redução no número de Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs) que o Ceará registra há 20 meses vem ocorrendo de maneira semelhante nas quatro regiões em que a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) divide o Estado: Capital, municípios da Grande Fortaleza e Interior Norte e Sul. A SSPDS não disponibiliza os dados de assassinatos por município.

Fortaleza é, dessas regiões, a que apresentou melhor resultado na comparação do acumulado de janeiro a novembro de 2018 e janeiro a novembro de 2019. A redução nesse período é de 56,2%, saindo de 1387 em 2018 para 608 em 2019. As demais regiões tem desempenho semelhante, porém. Região Metropolitana tem 46,7% de redução (saindo de 1201 CVLIs para 640), enquanto o Interior Norte, 54,2% (842 para 386) e Sul 45,8% (760 para 412).

Nos municípios interioranos, mesmo dentre as Áreas Integradas de Segurança (AIS), a redução se dá de maneira semelhante. Essas registram variação positiva entre 35,1% e 66,40% no período. Em média, o Interior diminuiu em 50% os assassinatos entre 2018 e 2019.

Há regiões que a redução chega a quase dois terços, todavia. É o caso da Área Integrada de Segurança (AIS) 17, que abarca municípios como Itapipoca, Jijoca de Jericoacoara e Pentecoste. Entre 2018 e 2019, a redução de assassinatos na região foi de 66,40%, saindo de 271 para 91 crimes. Outra área com redução acima dos 60% é a AIS 22, de municípios como Tauá, Quiterianópolis e Parambu. Enquanto em 2019 a região registrou 23 assassinatos, em 2018, esse número havia sido de 60.

A AIS com menor redução, por outro lado, foi a que abrange os municípios do Cariri, como Juazeiro do Norte e Crato. A AIS 19 diminuiu em 35,1%, passando de 239 assassinatos para 159.

Mortos pela Polícia também diminuem

Após começar o mês com o maior número já registrado de mortes em intervenção policial, 2019 também vê cair o número de mortos pela Polícia em ações legais. Até novembro último, ocorreram 126 mortes em decorrência de oposição à intervenção policial. Esse número havia sido de 201 em 2018 — uma redução de 37,3%, portanto.

O ano de 2018 havia sido aquele com o maior número de mortos pela Polícia desde 2013, quando a estatística passou a ser computada. Era o ano seguido que batia essa marca — 2017 tinha 148 mortos pelas forças de segurança até novembro. Janeiro deste ano, o mês de uma série de mais de 200 atentados orquestrada por facções criminosas, continuou a tendência, com o registro de 28 mortes feitas pela Polícia. Nenhum outro mês havia registrado tantas mortes desde o início da série. Desde então, o Ceará viu uma queda acentuada no indicador.

Os números, porém, ainda se encontram acima dos patamares registrados em 2016, quando 90 pessoas haviam morrido em ação policial — acréscimo de 28,5% em comparação com este ano.