Carteira de crédito avaliada em 2,9 bilhões vendida por 371 milhões a banco ligado a Paulo Guedes — transação gera desconfiança

Carteira de crédito avaliada em 2,9 bilhões vendida por 371 milhões a banco ligado a Paulo Guedes — transação gera desconfiança

O Banco do Brasil informou, por meio de comunicado ao mercado, no dia 1º de julho, a venda de uma carteira de créditos, a maioria em perdas, a um fundo administrado pelo BTG Pactual — banco fundado pelo atual ministro da Economia Paulo Guedes.

A transação é inédita. No comunicado, o BB informa que é a primeira vez que realiza a cessão de carteira cujo o cessionário não pertence ao seu conglomerado. “Esta operação é o piloto de um modelo de negócios que o Banco está desenvolvendo para dinamizar, ainda mais, a gestão do portfólio de crédito”, conclui o texto.

A carteira é um conjunto de clientes que contrataram empréstimos junto ao Banco do Brasil. No caso do conjunto que foi comercializado, a maioria não quitou as dívidas junto ao banco. Ao assumir a carteira, o BTG passa a ser o credor.

O valor e o tamanho da carteira são inéditos no mercado financeiro brasileiro. Até então, o Banco do Brasil negociava a cessão das dívidas individualmente.

De acordo com o Banco do Brasil, a carteira vale R$ 2,9 bilhões e foi vendida por R$ 371 milhões, ainda sem impostos, que serão lançados no terceiro semestre de 2020.

Desconfiança — “Que acordo é esse? Que negociação é essa que o Banco do Brasil fez com o BTG Pactual? O que está acontecendo por trás disso? Nós queremos saber”, cobrou o deputado federal paranaense Enio Verri (do PT), que protocolou requerimento para o ministro da Economia, Paulo Guedes, esclarecer a operação entre o Banco do Brasil e o fundo administrado pelo BTG Pactual.

Também o histriônico subprocurador-geral do Ministério Público no Tribunal de Contas, Lucas Rocha Furtado, requereu a apuração de supostas irregularidades na venda. Na representação, o subprocurador disse ser necessário averiguar se a transação não acarretou prejuízos ao BB e se não "atentou contra os princípios da finalidade e moralidade pública".  

Para o subprocurador o BB não detalhou se preço cobrado foi justo nem citou qual teria sido o lucro do BTG na transação. Afirmou também não ter ficado claro o porquê uma instituição privada teria maior capacidade de cobrar as dívidas. Segundo ele, no mesmo período, o BB adquiriu outras carteiras — uma no valor de R$ 240,5 milhões, comprada ao Banco BV. 

Furtado também mencionou o pedido de demissão do atual presidente do BB, Rubem Novaes. Na sexta-feira passada, 24/07, Novaes de 75 anos deixou o cargo, alegando “cansaço”, acrescentando que não se adaptou à “cultura de privilégios, compadrio e corrupção de Brasília”.
Rubens ocupava o posto desde o início do governo, em janeiro de 2019. Cópias da representação foram enviadas pelo subprocurador à Câmara dos Deputados e ao Senado.

Nota oficial — O Banco do Brasil se manifestou em nota. Leia a íntegra:
"Em referência ao Comunicado a Mercado divulgado no último dia 1º de julho, sobre cessão de carteira de crédito, o Banco do Brasil esclarece que:
1) A cessão da carteira ocorreu após processo de concorrência que contou com a participação de 4 empresas especializadas neste mercado. O cessionário escolhido foi aquele que apresentou a maior oferta de pagamento à vista e o maior percentual do rateio de prêmios futuros.
2) A precificação da operação, a avaliação de riscos e a evidenciação da vantajosidade econômica para o Banco do Brasil contaram com o acompanhamento de consultoria externa realizada pela empresa Pricewaterhouse Coopers.
3) Os créditos cedidos referem-se a operações que estavam inadimplentes, em média, há mais de seis anos. Do total, 98% já estava? lançado em prejuízo e os 2% restantes contavam com provisões. Além disso, trata-se de um portfólio de operações ajuizadas, com processos judiciais iniciados há até 15 anos.
4) A parcela à vista que foi paga pela carteira superou a estimativa de recuperação desses créditos (à vista e a prazo) pelas esteiras do próprio Banco do Brasil e ainda agregou a expectativa de resultados futuros mediante compartilhamento de prêmios líquidos, sendo que os riscos são assumidos pelo Fundo adquirente.
5) A cessão da carteira terá impacto positivo no resultado financeiro do Banco do Brasil, calculado em R$ 371 milhões, antes dos impostos."