"Cara, não consigo respirar!"

"Cara, não consigo respirar!"

Em uma época que se fala tanto de união e solidariedade, será que estamos mesmo indo nesta direção?

"Cara, não consigo respirar!". Estas foram as palavras repetidas com dificuldade por George Floyd, de 46 anos, durante quase sete minutos enquanto tinha seu rosto no asfalto e o joelho do oficial da polícia de Minneapolis, Derek Chauvin em seu pescoço, até o instante que parou de se mover.

George Floyd4.jpgGeorge-Floyd3.jpg

Em seu pronunciamento sobre o caso, Tim Walz, Governador de Minnesota, cujo discurso em boa parte soou um tanto demagogo, ele cita uma conversa que teve com um reverendo que disse: "este é o momento de nós começarmos, mas todas as vezes que chegamos a este momento, nunca começamos o processo para nos certificarmos que isto jamais aconteça novamente".

A intenção deste artigo não é documentar o que está acontecendo neste momento em Minneapolis, Minnesota, o que seria apenas uma repetição das dezenas de fontes que podem ser encontradas pela internet. A intenção é propor uma reflexão sobre o assunto.

Para aqueles pouco familiarizados com o tipo de segregação racial nos Estados Unidos, o filme nacional "Bacural", que obteve grande notoriedade e elogios de público e de crítica, possui uma cena que tanto nos aproxima mais dessa realidade quanto a descreve. Em dado momento, dois brasileiros sulistas e brancos, conversam com um grupo de americanos, americanos estes que entre risos durante uma conversa sobre "brancos", lhes dizem: "Brancos? Vocês? Vocês não são brancos, vocês são latinos". Isso trás uma questão interessante. Aquele seu conhecido, branco, de cabelos e olhos claros e que possui atitudes preconceituosas, faz piadas desagradáveis com negros, no momento que ele abrir a boca em vários lugares dos EUA, será tratado desta mesma maneira.

Ainda que exporte a imagem de avanço, desenvolvimento e do sonho americano de progresso e liberdade, há vários problemas sérios nas terras do Mickey Mouse. Vários lugares do país são verdadeiros barrís de pólvora prontos para explodir, e foi o que aconteceu.

Mesmo tendo abolido a escravidão, até 1964 havia leis explicitamente raciais, como as que impediam de um negro frequentar um local para brancos, entre muitas outras atrocidades. Ainda sobre escravidão, os negros nos Estados Unidos são minoria, representando 12% da população. Então temos duas informações curiosas: mesmo sendo apenas 12% da população, 40% da população carcerária norte americana é composta por negros. E em vários estados, há leis que permitem a exploração de mão de obra de presos por parte das prisões que são instituições particulares. Isso pode ser visto no documentário de 2016 "13ª Emenda" de Ava DuVernay. Que pode ser encontrado em serviço de streaming.

Não é um assunto novo ou sequer pouco discutido, com certeza, ainda não o suficiente, mas recorrente. A excelente série policial de comédia "Brooklyn 99", levanta o tema de forma incisiva e delicada no episódio dezesseis da quarta temporada "Moo, Moo". O sargento Terry, interpretado pelo irreverente Terry Crews (As Branquelas, Os Mercenários) caminha pelas ruas do bairro que reside à procura de Moo Moo, o cobertor de uma de suas filhas pequenas que caiu por engano quando passava por ali. Terry é abordado pelo oficial Maldack (Desmond Harrington) que trata o sargento como um criminoso apenas por ser um negro, caminhando à noite em um bairro de classe média. Todo o desenrolar é bastante emocionante e vale a pena ser visto.

Vários documentários abordam o assunto como "LA 92", o fortíssimo "Olhos que condenam" (também disponível em streming), "I am not your negro", "The eye of the storm" de Jane Eliot cujas experiências nos anos 60s e 70s deixaram claros os efeitos da desigualdade no desenvolvimento e no comportamento humanos, "The Kalief Browder Story", apenas para citar uns poucos.

Nas séries há algo a ser notado, um serviço de streaming lançou há uns anos as séries de heróis menos conhecidos da Marvel, que contava com Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. Ainda que Punho de Ferro seja claramente mais fraca, sobre um americano que vai parar em um templo secreto no Tibet e retorna para casa com poderes místicos baseados em kung fu, Luke Cage, mesmo contando com uma produção e desenvolvimento claramente melhores, se tornou mais esquecido até que seu colega de cachos dourados, olhos azuis e punho brilhante.

461acdce60deae739fa33a4ef34714cf.jpg201906131239-uau-posters-series-seriado-luke-cage.jpg

Da mesma forma que no lado da DC Comics e do chamado "arrowverso", das séries "Arrow", "Flash", "Supergirl" e "Legends of Tomorrow". Esta última começou apenas viajando no tempo, já passou por lobisomens e agora enfrenta ameaças que voltam do inferno em momentos importantes da história para causar o caos e mesmo assim pouco se comenta é de Raio Negro, que também faz parte deste universo compartilhado de séries, mas que trata de assuntos da comunidade negra que é tão obscuro que parece ser secreto, mais até que a identidade civil do protagonista.

black-lightning.jpg

Entre filmes temos o Premiado "Corra!" de 2017, o recente sucesso da franquia bilionária da Marvel no cinema "Pantera Negra", "Luta por Justiça", ambos com a fabulosa participação de Michael B. Jordan (Creed). E claro, uma extensa lista construída por anos com filmes como Malcolm X de 92 com Denzel Washington, que também está na obra prima "Tempo de Glória" ao lado de Matthew Broderick (o eterno Ferris Bueler), Andre Braugher (Brookyn 99) e o sempre divino Morgan Freeman em um dos filmes mais emocionantes já produzidos pelo cinema. A cena da cantoria ao redor da forgueira é algo indescritível.

Se ficou interessado, procure também por "Sonhos Imperiais" e "Detroit em Rebelião" estrelados por John Boyega (Star Wars, O Despertar da Força) e a série Atlanta, de Donald Glover, aquele mesmo provocador clip do Childish Gambino - "This Is America", que trata justamente do preconceito racial que faz parte da cultura e do comportamento diário.

Deixo a vocês as palavras do poema de Bertolt Brecht (1898-1956).

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."