Aulas à distância preocupa alunos da rede estadual

Aulas à distância preocupa alunos da rede estadual

Muitos estudantes alegam não ter condições tecnológicas para acompanhar o conteúdo online disponibilizado pela Secretaria Estadual de Educação

Alunos da rede estadual de ensino receberam com desconfiança a decisão do governo do Estado em passar a contar como carga horária letiva as aulas não presenciais. Muitos estudantes alegam não ter condições tecnológicas para acompanhar o conteúdo online disponibilizado.

De acordo com a própria Secretaria de Estado da Educação (Sedu), cerca de 72 mil estudantes da rede estadual não possuem acesso às plataformas necessárias para seguir com os estudos durante a pandemia ou estudam em local inadequado. Esse montante representa 30% do total de alunos da rede.

Mesmo assim, os conteúdos já passados aos alunos, de forma não presencial, poderão contar como dias letivos, dependendo do desempenho deles em avaliações que serão aplicadas a partir de julho para testar os conhecimentos adquiridos. A decisão foi anunciada pelo governo do Estado, na quinta-feira (25), durante uma coletiva de imprensa pela internet.

"Essa avaliação será feita no mês de julho, de maneira online, para alunos do sexto ano para frente, porque a gente entende que há uma particularidade para os alunos entre o primeiro e o quinto ano, que farão, apenas presencialmente, também uma prova online, mas dentro da escola, quando ela abrir", explicou, nesta sexta-feira, o secretário estadual de Educação, Vitor de Ângelo, à reportagem da TV Vitória/Record TV.

"Uma pergunta que alguém pode fazer é: 'puxa, mas e quem não tiver internet para fazer a prova online agora'? Não tem nenhum problema. Tal como os alunos do fundamental 1, do primeiro ao quinto ano, essas pessoas também farão essa prova online, mas nos equipamentos da escola, quando a escola abrir, de modo que a prova será aplicada a todos os alunos. É uma avaliação censitária, não fica ninguém de fora", completou De Ângelo.

Para a professora do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e doutora em educação, Cleonara Maria Schwartz, contabilizar essas atividades ofertadas após a suspensão das aulas presenciais, no dia 17 de março, exige muita cautela, para evitar que parte dos estudantes fique para trás.

"Precisa ser analisado, pontualmente, caso a caso, território por território, para a tomada de decisões, para que a gente não aumente ainda mais as desigualdades já existentes no campo da educação. São desigualdades históricas", frisou.

Alunos

Muitos alunos afirmam não concordar com o fato de as aulas e atividades disponibilizadas pela Sedu via TV e internet passem a valer como dias letivos, assim como as atividades impressas ofertadas.

"Eu acho que vai ser bem complicado. Muitos alunos perdem o incentivo, não estão motivados a continuar mexendo pela plataforma digital, estudando e fazendo as atividades", destacou a estudante Ludmila Barros.

Ludmilla é aluna do último ano do ensino médio em uma escola estadual de Coqueiral de Itaparica, em Vila Velha. Ela conta que estuda por meio das aulas transmitidas pelos professores ao vivo pela internet.

"Os professores estão fazendo lives. Eles disponibilizam cronogramas semanais, live para os primeiros, segundos e terceiros anos. Lives de história, biologia e assim por diante", contou.

Também aluna do último ano da mesma escola estadual de Coqueiral de Itaparica, Mayara Souto conta que perdeu boa parte do que foi passado porque ficou sem internet e sem celular por um bom tempo. Com isso, os conteúdos ficaram acumulados.

"Eu concordo sim que essas matérias possam orientar estudantes, porém eu não concordo com o fato de fazer com que essas atividades possam valer nota ou até mesmo presença, porque, assim como eu, muitos alunos de escola pública não têm condição sequer de ter um computador, um celular", afirmou.

É o caso também, por exemplo, do estudante do oitavo ano do ensino fundamental de uma escola estadual de Feu Rosa, na Serra, Yeshua Miguel dos Prazeres, de 14 anos. A escola onde ele estuda passou a disponibilizar, há cerca de duas semanas, um material impresso, que traz resumos de cada conteúdo. Além da leitura, o menino precisa responder algumas questões.

Antes de receber o material, o adolescente diz que passava os dias ajudando a mãe nos afazeres domésticos. "Olhava os meus irmãos, varria, passava pano, fazia o almoço para eles", conta.

Na casa da família dele não tem televisão para acompanhar as videoaulas exibidas em canal aberto pela Sedu. Além disso, a internet do celular da mãe do menino, a artesã Késia Alice dos Prazeres, não dá conta de baixar os conteúdos disponibilizados.

"Antes do material impresso, a gente estava fazendo lá na Associação de Moradores. Mas teve um período que lá ficou sem internet e aí ele não conseguiu mais fazer as atividades, porque dentro da minha casa não pega internet", contou Késia.

O secretário de educação, no entanto, afirma que nenhum aluno da rede estadual de ensino será prejudicado pelas medidas anunciadas na quinta-feira. Ele afirma ainda que não está descartada a possibilidade de o ano letivo de 2020 ser estendido até 2021.

"Todas as possibilidade estão sobre a mesa. Mas o calendário ainda não foi definido e a definição do calendário passa também por saber se consideramos determinados dias, como sábado, por exemplo, ou não. Essa é uma discussão que será feita ainda com o sindicato, por exemplo — já foi iniciada, mas ainda precisa ser definida —, e com as prefeituras. Afinal, no caso do governo estadual, é muito importante que a gente tenha uma coincidência de calendários entre prefeituras e governo do Estado", ressaltou Vitor de Ângelo.

Com informações da repórter Fernanda Batista, da TV Vitória/Record TV