WAKANDA FOREVER

WAKANDA FOREVER

Como um plano secreto de um vilão inescrupuloso, o mundo foi privado de Chadwick Boseman, o Pantera Negra, em um momento que tanto precisava.

Há situações que são difíceis de se mensurar seus efeitos. Em 15 de fevereiro de 2018 chegava aos cinemas Pantera Negra. Parte integrante do já bem estabelecido Universo Cinematográfico Marvel, dava continuidade a acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil e nos apresentava com mais profundidade o universo de T'Challa, príncipe de Wakanda, uma nação africana fictícia de tecnologia avançada e fonte do metal vibrânio.

Conforme os dias se passavam, mais e mais pessoas teciam enormes elogios ao filme. Mas Pantera Negra não foi apenas um filme. Nós que crescemos tendo He-Man, Capitão América, Superman, Wolverine, Batman e tantos, tantos outros heróis brancos e do sexo masculino, não fazemos ideia do verdadeiro significado que T'Challa teve para várias pessoas. É como tentar imaginar a cor que caiu do espaço de H. P. Lovecraft. Simplesmente não temos as experiências necessárias para tal. O que pudemos ver foram seus efeitos.

Um dos vídeos mais emocionantes do ano de 2018 foi uma criação da equipe do talk show The Tonight Show Starring Jimmy Fallon, que mostra fãs, sendo levados diante de um grande pôster do filme para compartilhar o significado de suas experiências como se o fizessem ao próprio ator. O que os participantes não sabiam é que Chadwick Boseman estava atrás da cortina ouvindo, até se revelar para cumprimentar o fã. Esta foi uma pequeníssima amostra do que este homem fez.

 

Estas são traduções de duas das fãs:

"Como criadora e empreendedora de cor, ver este filme me fez perceber que nossas histórias precisam ser contadas. Há tantos de nós por aí, que estão tentando criar grandes coisas, e eu fiquei tão inspirada, como alguém que um dia quer fazer filmes, inspirar pessoas e que esta arte pode, realmente, mudar o mundo".

"Palavras não são capazes de descrever o que este filme significa para mim e para outras pessoas negras. E eu sei que isto é para você, Chadwick (se referindo a estar falando com o poster dele e, em tese, gravando uma mensagem para ele), mas eu gostaria de separar um segundo para agradecer às mulheres negras também, porque elas são tão fortes em suas próprias maneiras e não respondem a ninguém se não a si mesmas. Acredito que isso seja tão importante, *porque elas não são fortes porque estão com raiva. Elas não são fortes porque estão feridas. Elas são fortes porque são e pronto. E isto significa um mundo para mim. Então, obrigado".

 

ÍMPORTÂNCIA DO HERÓI NEGRO

Não, Pantera Negra não foi o primeiro herói negro nas telas. Podemos ir desde o adorável Axel Foley de Eddie Murphy como herói de ação no fim dos anos 80s para início dos 90s. Sequer é o primeiro herói negro da Marvel no cinema, lugar que muitos sabem ser de Blade, o caçador de vampiros de Wesley Snipes de 1998. A questão é que, por mais que Blade pudesse ser uma referência para um garotinho negro, a conexão acaba ai. Pantera Negra trouxe um homem negro, não apenas um homem comum que ganha poderes por raios radio ativos ou por um super soro, não, este homem é um príncipe e logo um rei. Ao seu redor toda a cultura africana está representada nas roupas, no modo de falar e nas pessoas, não uma meia dúzia para dizer que existem, mas uma nação inteira.

As meninas, principalmente as negras, tiveram também grandes motivos para comemorar. As mulheres de Pantera Negra, como disse uma moça ao poster de Chadwick, "... elas não são fortes porque estão com raiva. Elas não são fortes porque estão feridas. Elas são fortes porque são e pronto". Letitia Wright e sua carismática Shuri, irmã de T'Challa e gênio por trás da maior parte das tecnologias do Pantera. Lupita Nyong'o como Nakia, que embora seja o interesse romântico do herói, passa longe de ser uma donzela indefesa, que por falar em indefesa temos Danai Gurira como Okoye, a líder casca grossa das Dora Milaje, com sua devoção e vontade implacáveis.

A importância de Pantera Negra é uma lista quase sem fim, mas a carreira em papéis emblemáticos de Chadwick não se resume ao rei de Wakanda. Em 2013 o ator interpretou Jackie Robinson, primeiro jogador negro na chamada Major League de beisebol americana, a mais importante, no filme 42, A História de uma Lenda. Em 2014 ele interpretou o rei do soul e figura controversa, James Brown em Get On Up.

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O legado de Chadwick Boseman é maior que o próprio ator. Planejado para a próxima fase, Pantera Negra 2 era um dos filmes confirmados e muito aguardado. Agora a Marvel terá de lidar com um dilema. Se fizerem um Pantera Negra 2 e simplesmente substituírem Chadwick, haverá certamente uma grande comoção e um filme que pode vir a ser muito bom, pode ser arruinado simplesmente porque os expectadores já puseram em suas cabeças que "vai ser uma merda e não passará de um caça-níqueis". Lembrando que a Disney-Marvel é uma empresa e embora traga grandes efeitos positivos, como no reconhecimento da cultura negra, o efeito que ela busca e lhe que importa é o financeiro. Por outro lado, não fazer outro filme do Pantera Negra seria uma perda enorme para o debate atual, logo neste momento após a morte de George Floyd, o caso Jacob Blake em Wisconsin, que levou times da NBA a se recusarem a jogar em protesto, enquanto algo não for feito a respeito da situação.

Mesmo no caso do Brasil, que é um país que além de não possuir a organização e união mínimas encontradas nos Estados Unidos em prol da causa, ainda se entretém com programas sensacionalistas e absurdos na hora do almoço, que em nome da audiência, criam um verdadeiro circo ao redor de crimes, esbravejando e incitando o ódio e, mesmo que algumas vezes indiretamente, a ideia de "bandido bom é bandido morto", mas que em raríssimos casos, esta máxima ou mesmo está raiva é direcionada a grandes homens brancos de negócios e políticos, que se muito, lhes sobram piadinhas insoças e despretenciosas. Aqui no Brasil temos o "caso Floyd do dia". É tão comum e natural quanto acabar de gritar indignado pela ação de um criminoso e virar para a outra câmera para falar de promoção em materiais de construção. Este é o grau de desconexão.

Mas então, qual seria a melhor solução? A única que consigo pensar e lhes trazer seria honrar a participação de Chadwick e dar mais um passo à frente na boa luta, com algo que já ocorreu nos quadrinhos: a princesa Shuri se tornar rainha e assumir o manto se tornando a Pantera Negra.

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Chadwick Boseman infelizmente perdeu a luta de quatro anos contra um câncer no cólum. Seus amigos e colegas de trabalho enviaram mensagens de carinho e desejando forla aos familiáres.

 

Chris Evans, o Capitão América

 

 

 Mark Rufalo, O Hulk

 

Seja como for, 2020 está passando como um furacão, deixando para trás um rastro de destruição e grandes nomes perdidos.