Ghost of Tsushima, o último exclusivo da era Playstation 4

Ghost of Tsushima, o último exclusivo da era Playstation 4

Ao lado de The Last of Us 2 e Cyberpunk 2077 o título está entre os jogos mais aguardados dos últimos anos.

"É falta de fibra imaginar que você não conseguirá alcançar o nível de seus mestres.
Os mestres são homens. Você também. Se acha que será inferior ao fazer algo, com rapidez, então, você estará no caminho de realmente ser inferior."
Yamamoto Tsunetomo, Hagakure, o Livro do Samurai

 

Com 2,4 milhões de cópias vendidas em apenas três dias (tornando-o jogo de franquia original de venda mais rápida do Playstation 4), Ghost of Tsushima, é o último lançamento da geração da Sucker Punch Productions, a mesma da série Infamous, franquia de grande sucesso desde o Playstation 3, inclusive Infamous Second Son foi um dos jogos que popularizou o Playstation 4 em seu lançamento.

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O game se passa durante a invasão dos mongóis ao Japão no século XIII. Por sua proximidade ao continente, Tsushima é o portão de entrada para as terras nipônicas. Você acompanha Sakai Jin, um dos últimos samurais sobreviventes ao ataque mongol e sua jornada para reunir forças para rechaçar os invasores e retomar sua terra natal.

Ok, "e daí?".
Começando pelos pontos fracos, o pior deles é a câmera. Principalmente nos combates que exigem cada vez mais reflexos, por várias vezes a câmera passa por árvore e paredes inimigos, lhe deixando à pura sorte. Assim como em vários outros jogos, os objetos precisavam se tornar translúcidos para lhe permitir ver nestes momentos. Algumas vezes as próprias reações da câmera atrapalham. Outro probleminha que o jogo tem, são as pequenas repetições que vão ocorrendo conforme o jogo avança. Além dessas, com certeza há outros erros, mas tão pequenos que se perdem.

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Você não sabia que nunca havia jogado um game de samurai até experimentar este.
Se você gosta de filmes de samurai, dos clássicos Yojimbo, O Barba Ruiva, e claro Os Sete Samurais de Akira Kurosawa, ou mesmo filmes japoneses mais modernos, este jogo lhe trará um algo mais. Aqueles que gostam da cultura japonesa, com suas nuances, e pequenos detalhes que muitas vezes nos escapa, cada passo que você dará em Ghost of Tsushima será delicioso. Diferente de jogos como Nioh, ou Sekiro, que possuem praticamente apenas uma capa de cultura japonesa, mas não lhe transportam para o Japão feudal.

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Os detalhes de GoT como as pétalas de cerejeira voando enquanto você passa, os diferentes tons de luz do sol iluminando campos e montanhas cobertos de flores, cada detalhezinho nas casas, nas roupas, nos pequenos animais. Para você ter uma ideia, deslizando o dedo para cima no pad do controle o vento lhe mostra a direção a seguir, não apenas um marcador na tela, mas o vento. Deslizando para a direita, você saca ou guarda a espada, para a esquerda (esta foi surpreendente) você pode caminhar tocando flauta, cujas melodias são desbloqueadas conforme você encontra os grilos canoros pelo jogo. Agora veio a parte que realmente me deixou boquiaberto com o carinho dedicado: se você deslizar o dedo para baixo, Jin inclina-se para frente em um breve cumprimento. Se você fizer isso diante de corpos de inocentes, conhecidos, algumas vezes ele diz coisas como "que encontre seu descanso". Um comando "inútil", escondido ali entre tantos comandos de espadas, chamar o cavalo, etc., ainda guarda reações que seriam puramente interpretativas. E é na interpretação, no "mundinho" que GoT brilha. Normalmente, quando ações morais são relevantes em um jogo há algum tipo de punição ou recompensa. Nos próprios jogos anteriores da Sucker Punch, você pode seguir o caminho "do herói", ou o "infame", cada um com seus poderes próprios. O incrível aqui é que, ainda que haja muita pressão sobre suas decisões em agir de forma furtiva (como um ninja), nada em termos de mecânica acontece. Você não perde ponto, não enfraquece, apenas se sente mal. Quanto mais você conhecer a cultura samurai, o código bushido dos samurais, pior se sente em se esgueirar e matar um inimigo pelas costas ao invés de se apresentar diante dos oponentes e convocá-los a lutar. É incrível perceber como uma mecânica narrativa consegue afetar o modo como você joga. Claro, há uma enorme quantidade de jogadores que apenas vão dar start e correr para fatiar inimigos seja quem forem e como for, nada de errado, mas estes jogadores estarão comendo com as mãos e enchendo as bocas com um delicioso banquete de sabor delicado e nuances sutis. Para estes jogadores Ghost of Tsushima será um 7/10, ou até um 6/10 pela falta da uma AK-47, item indispensável na diversão de alguns.

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Mas se você faz parte do outro grupo, o que admira a cultura japonesa e se permitir ser levado, tudo neste jogo vai manter um sorriso em seu rosto.

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COMBATES ÉPICOS
O sistema de combate é sensacional, mas ele guarda um segredo. Pude perceber isso de outros jogadores. Como dito antes, a câmera do jogo é ruim e isso atrapalha nos combates. Olhando com atenção pude perceber que, se você entra em GoT pensando nele como um Nioh, um God of War ou um Sekiro, ou seja, se você sentar para jogar achando que estará jogando um hack'n slash ou um soul's like, você vai apanhar muito e vai se frustrar. Este jogo é um jogo de samurais. O combate dele funciona bem quando você age como um. Aguarda o ataque inimigo em busca de brechas, procura sempre aparar os golpes ao invés de partir com tudo tentando cortar todo mundo.

OS QUATRO CAMINHOS DO COMBATE
Confronto: quando se aproxima de um grupo de inimigos, você pode pressionar para cima no direcional e acionar o confronto, desafiando os inimigos a mandarem seu melhor em um combate um a um contra você. Em um momento de pura cinematografia, os dois se encaram, Jin com sua katana embainhada, o inimigo à sua frente. Você segura o botão triângulo e o solta no exato momento que o inimigo ataca, desferindo um golpe letal. Se errar o tempo, recebe um golpe que o deixa à beira da morte.

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Combate tradicional: ataques, combos, defesas, aparas e esquivas, e para isso você conta com quatro bases de combate, cada uma especializada em um tipo de inimigo.

Ataques furtivos: os ataques escondido, com os inimigos de costas, dormindo ou atordoados. Ou seja, ataques ninja na prática.

Duelos: desafios um contra um. Uma espécie de boss fight extremamente cinematográfica.

RIQUESA DE DETALHES
"Mas afinal, e os gráficos?". Se você quiser saber se uma folha de uma árvore de GoT tem mais ou menos polígonos que uma de The Last of Us 2, este último ganha disparado. Entretanto é no design de arte que o jogo destrói. Ainda que possua gráficos menos refinados que vários outros jogos da geração, até pode ser de mundo aberto, as escolhas artísticas são incríveis.

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Desde a forma como a luz do sol entra pelas frestas do telhado de uma casa abandonada, ou nas roupas, na vegetação, nas folhas caindo, a chuva, o luar iluminando os templos.

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Não é apenas uma questão de "mais bem feito", e sim de qualidade do "que foi feito". O que torna o gráfico absolutamente deslumbrante.

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É gritante o esforço da desenvolvedora para lhe mergulhar nessa cultura que, muitas vezes para nós é tão alienígena. Você vai seguir Inaris, as raposas místicas que, segundo a mãe de Jin, o protegem desde criança. Vai seguir pássaros amarelos que vão levá-lo a lugares secretos com melhorias e itens, vai meditar e descansar em fontes termais para aumentar sua vida, vai até mesmo escrever haikais, pequenos poemas de origem japonesa, que buscam expressar muito em poucas palavras.

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E o som? A trilha sonora varia de eficiente a fantástica, mas mais do que ter uma boa trilha é usar bem esta trilha. O game lhe trará vários momentos de silêncio e entrará com uma trilha suave de acordo com o nascer do sol, ou na aproximação de algum dos lindos templos e vai mergulhar você em músicas de batalha com tambores fortes e empolgantes, mas sem lhe tirar a concentração. É como se pudesse ouvir seu próprio coração acelerar.

São tantas as qualidades, são tantas as belezas que esta obra lhe oferece, que precisei peneirar para não alongar ainda mais.

Acompanhe o caminho de Sakai Jin, um samurai que luta para manter suas tradições e permanecer fiel ao bushido enquanto tenta libertar sua terra de inimigos que pouco se importam com honra e respeito.

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Seja você mais samurai ou mais ninja, se o Japão antigo lhe atrai, pule de cabeça e se deixe levar.