Bloco do sofá: no cinema ou telinha, feriadão é oportunidade para conferir o melhor da temporada

Bloco do sofá: no cinema ou telinha, feriadão é oportunidade para conferir o melhor da temporada

Longas-metragens e séries podem salvar o Carnaval de quem não nasceu para se jogar na folia

Todo ano, durante quatro dias, o Brasil respira Carnaval. Essa é nossa cultura e ver a alegria tomando conta das ruas é algo mágico. O glitter, as fantasias, a música. É quase irresistível.

Quase!

Para milhões de brasileiros, a brecha de tempo aberta pelo feriadão funciona mais como um passaporte para viver dramas, comédias, aventuras ou mistérios. Em lugar de folia, quem faz parte do bloco do sofá prefere mesmo é uma boa maratona. Seja telinha ou telona, a diversão de cinéfilos não tem hora para acabar.

Mas aí vem a dúvida: Por onde começar?

Como veterana dessa turma, eu diria que esse período é perfeito para dar uma chance aos filmes que se destacaram na temporada. Premiados ou não, há títulos que valem ser conferidos. Alguns ainda estão em cartaz nos cinemas da cidade. É o caso de "Parasita", "Era Uma Vez Em... Hollywood" e "Adoráveis Mulheres". Se ainda não viu, se apresse.

Outras duas produções merecem entrar na agenda.

 

 

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"1917" é uma obra que merece ser vista nas telonas Divulgação

Premiadíssimo e com cenas filmadas em planos sequência (que dão ao espectador a sensação de que não há cortes), "1917" faz bem o estilo de quem gosta de épicos de guerra. O roteiro não ajuda muito, mas o diretor Sam Mendes entrega uma obra interessante.

Estrelado pelos jovens George MacKay (Schofield) e Dean-Charles Chapman (Blake), o filme conta uma história de superação e coragem que se passa durante a Primeira Grade Guerra. Uma mensagem precisa ser entregue a um pelotão para evitar seu massacre, nem que para isso as vidas de dois cabos corram o risco de ser sacrificadas.

Com seu estilo grandiloquente, "1917" nos permite enxergar o inferno de uma guerra por um ângulo bem realista. Nesse momento, é impossível não se entristecer com a raça humana, que diante dos horrores repetidos por séculos, ainda não aprendeu a lição.

Todos os dias, basta ligar a TV para enxergar que não há final feliz nas guerras da vida real.

Mas, assim como aquele que pai que inventou uma brincadeira para distrair a filha durante as explosões de bombas e morteiros na Síria, "Jojo Rabbit" consegue divertir mesmo tendo a guerra como pano de fundo. Difícil não fazer referência a Roberto Benigni e seu "A Vida é Bela".

Dessa vez, o que nos encanta é a inocência de um garoto de dez anos que tem um Hitler estúpido e desengonçado como amigo imaginário. Ao encontrar uma garota judia escondida em sua casa e sob a proteção de sua mãe, Jojo dá uma "aula" de empatia na telona.

Cinema é mesmo a maior diversão, mas se o dinheiro estiver curto, nada de desanimar.

Com a popularização do streaming, dá para explorar um mundo de opções nos catálogos da Netflix, Amazon Prime, HBO GO e por aí vai. A diversão pode ser em grupo, a dois ou no bloco do "eu sozinho". Tempo não vai faltar para uma boa maratona. Há ótimos títulos à disposição e eles não se limitam a Blockbusters.

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Adam Sandler surpreende com grande atuação em "Joias Brutas"

Produção original da Netflix, "Joias Brutas" é um dos melhores títulos da temporada. Adam Sandler, acredite, faz uma atuação monstruosa de boa. Na trama, ele é Howard Ratner, um judeu dono de uma loja de joias, em Nova York, que negocia com todo tipo de gente - de punguistas baratos a atletas milionários. Todo o dinheiro que ganha serve apenas para bancar seu vício em apostas (especialmente jogos da NBA). A jogatina é sua válvula de escape. Afinal, o casamento já não se sustenta, a amante não é exatamente confiável, os amigos só querem se dar bem às suas custas e para pagar as dívidas com agiotas, ele faz... mais dívidas.

O resultado dessa roda-viva é um homem dependente de adrenalina que tenta, desesperadamente, fugir de seus fracassos. Para isso, deposita suas esperanças em uma joia bruta traficada da África até suas mãos. Mas, a opala que seria a solução de seus problemas acaba desencadeando uma série de mal-entendidos, chantagens e mais apostas de alto risco.

O espectador é arrastado então para uma montanha-russa de ações frenéticas. O desconforto com a discórdia crescente, onde todos falam ao mesmo tempo, faz a ansiedade chegar a níveis extremos. Por vezes, a gente se vê sem fôlego, literalmente. O filme, eu diria, é quase sensorial.

Dirigido pelos irmãos Joshua e Benjamin Safdie, "Joias Brutas" tem narrativa bem construída, fotografia que usa a saturação de cores para sufocar as personagens e trilha sonora onde o tecno se sobressai. O mais importante é ver como situações aparentemente banais ganham complexidade à medida que o tempo passa e a violência emerge.

O final é tão improvável quanto chocante.

Para quem busca algo mais leve e alto-astral, o Amazon Prime atualizou seu cardápio onde podemos encontrar diversão e fantasia à vontade, com destaque para "Toy Story 4". Além de ter conquistado o Oscar de Melhor Animação este ano, a produção da Disney Pixar traz de volta Woody, Buzz Lightyear e o resto da turma que enfrentou poucas boas ao longo de 25 anos da franquia. Agora morando na casa da pequena Bonnie, os brinquedos precisam se unir ainda mais para proteger novos amigos, incluindo Forky, uma criaturinha maluquete, criada pela própria menina.

Além de remeter à nossa própria infância e mexer com a memória afetiva, o filme trata com sensibilidade temas como amizade, lealdade, ganhos e perdas que o tempo produz. Um desfecho digno e divertido para encerrar a jornada.

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Ben Mendelsohn e Cynthia Erivo roubam a cena na minissérie da HBO

Já para os fãs de suspense, a dica é maratonar "The Outsider". A nova minissérie original do HBO é baseada na obra homônima de Stephen King, um dos maiores gênios da ficção e suspense.

A história começa no condado americano de Cherokee, na Geórgia. A pequena cidade é palco da morte e violação de uma criança, encontrada em um parque florestal. Um crime ao mesmo tempo bárbaro e surreal já que o suposto assassino, um respeitado professor da comunidade, é visto por testemunhas no local do homicídio e, no mesmo dia e hora, também é filmado em uma palestra a centenas de quilômetros dali. Seu DNA e suas digitais também são encontradas nos dois lugares distintos. Impossível?

Estamos falando de King. Portanto, deduza!

Enquanto tenta encontrar algum sentido em meio a provas contraditórias, o detetive Ralph Anderson (Ben Mendelsohn) se vê às voltas com a investigadora particular Holly Gibney (Cynthia Erivo, ma-ra-vi-lho-sa). Nascida na Lituânia, ela é recrutada por usar métodos nem tão ortodoxos assim. Sem descartar possibilidades, Holly trava um embate permanente com Ralph, um homem atormentado por sua própria tragédia familiar. E vale ressaltar: os dois dão um show de interpretação na série que já tem sete episódios liberados.

Enquanto ele espera que a lógica prevaleça na busca pela verdade, ela aceita o inexplicável até vislumbrar no sobrenatural a chave que pode desvendar o mistério. E é nesse ponto que a tensão aumenta em "The Outsider".

Os mais atentos perceberão os planos mais fechados, a fotografia azulada como a de um eterno fim de tarde invernoso e os cenários quase claustrofóbicos das casas. As portas internas, por exemplo, são simetricamente enquadradas de forma a parecerem com um espelho refletindo outro espelho. Um infinito sombrio e quase hipnótico faz a gente querer descobrir o que existe além daquilo que não conseguimos enxergar quando a dor de uma perda transforma o real em um pesadelo.

E aí?

Vai ter pipoca nesse Carnaval?