Androides e aliens, de lixo de sub cultura a clássicos

Androides e aliens, de lixo de sub cultura a clássicos

Dois filmes lançados no mesmo dia a 38 anos, atacados severamente pela crítica e que anos mais tarde são diagnosticados como "muito à frente de seu tempo".

Na música, no cinema, livros e em várias outras formas de expressões culturais, é comum se ouvir alguém reclamar "mas está tudo igual, não há mais nada novo". Imagine que você colocou as mãos em uma história que o fez se apaixonar. Você trabalha esta ideia em sua cabeça e depois de muitas atribulações consegue financiá-la, passa por um processo penoso e lotado de percalços na produção, várias vezes acredita em silêncio que não vai ser terminado, mas por fim ali está. O resultado de sangue e suor de toda uma equipe finalmente se tornou um filme, apenas para ser lançado nos cinemas e:

"— The Thing (Enigma de Outro Mundo) é um filme bobo, deprimente, superproduzido que combina o terror e a ficção científica para criar algo que não é divertido como nenhum dos gêneros... É apenas qualificado como lixo instantâneo." — Vincent Canby, The New York Times
A obra de John Carpenter chegou até mesmo a ser chamado de "o filme mais odiado de todos os tempos".

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Blade Runner de Ridley Scott e The Thing de John Carpenter, dividem não apenas sua data de lançamento 25 de junho de 1982, mas o fato de ambos serem baseados em obras literárias, histórias de dificuldades de produção, consequência comum a todos aqueles que se atrevem a tentar algo novo, mas também foram alvo de críticas severas, até serem revisitados mais tarde, quando o público estava pronto para aquilo, e ambos são hoje considerados entre os maiores clássicos de seus gêneros.

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O filme de Ridley Scott, Blade Runner, o Caçador de Andróides, é, ainda nos tempos de hoje, a mais forte e expositiva expressão cinematográfica do gênero de ficção científica conhecido como cyberpunk. O termo "androides" do título pode gerar alguma estranheza ou mesmo erro de compreensão do filme. "Androide" é um termo geralmente usado para descrever um robô com características humanas (geralmente), mas os "replicantes" do filme não são robôs. O alvo da caça de Rick Deckard, personagem de Harrison Ford, são humanos criados e engenhados em laboratório para serem mais fortes, mais rápidos, suportarem climas mais inóspitos e justamente por isso, possuem uma "data de validade".

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Baseado no romance de nome inusitado "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?" de Philip K. Dick, acompanha o caçador de androides na busca pelos modelos Nexus-6, considerados os mais avançados e por possuírem uma validade de apenas 4 anos, estão à busca de seus criadores na tentativa de prolongar seu tempo de vida. O que o filme trás, mais do que sequências desmioladas de ação, é uma reflexão sobre o próprio significado de "ser humano". Afinal, o que nos define? Ser feito de carne e ossos? Ver, ouvir, falar? Ser capaz de apreciar uma música ou compô-la? Nossas memórias? Todo um debate tão enraizado no gênero cyberpunk quanto membros artificiais e carros voadores.

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Enigma de Outro Mundo é baseado no conto publicado em 1938 por John W. Campbell Jr. e trata de uma equipe de pesquisadores isolados na Antártida e têm de lidar com a aparição de uma criatura mortal.

Uma primeira adaptação cinematográfica foi lançada em 1951 chamada The Thing from Another World (que certamente inspirou o nome dado no Brasil ao filme de Carpenter), ou O Monstro do Ártico. Além deste tivemos The Thing de 2011, que conta os acontecimentos imediatamente antes dos do filme de 82, no acampamento holandês e que, para variar, teve muitos problemas de produção e de recepção, pois, uma das mais marcantes características de Enigma de Outro Mundo são seus efeitos práticos. Os monstros são bonecos animatrônicos enquanto no de 2011 o estúdio exigiu a utilização de computação gráfica, alegando ser algo que atrairia o público, já que estava cada vez mais presente nas grandes produções. O problema da computação gráfica é que ela depende de tempo e de dinheiro. Quanto mais dos dois você gasta, melhor o resultado e a produção de The Thing de 2011 não dispunha de muito de nenhum dos dois. No fim tivemos um filme que ainda que muitos fãs da franquia gostem, na maioria nem agradou fãs nem atraiu novos.

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Como The Thing, Blade Runner 2049 de 2017 é o retorno ao universo do filme. Dirigido por Denis Villeneuve de A Chegada e Os Suspeitos, o filme alcança uma tarefa ingrata, trazer algo novo que justifique sua produção e manter sua essência, tarefa que, ainda que alcançada, tem um gosto de "faltou alguma coisa", como o personagem artificial e exagerado de Jared Leto, que sou completamente deslocado do filme, em alguns momentos parecendo ter sido enxertado apenas como um favor a um amigo, mas que acaba prejudicando um pouco a história, já que o grande Jared Leto precisava que ser personagem fosse importante.

As similaridades entre estes gêmeos parecem não acabar. Enquanto Blade Runner conta com a trilha sonora magnífica de Vangelis, que confesso não conseguir imaginar algo que traduza com tanta perfeição os conceitos futurísticos retro e ao mesmo tempo melancólicos e contemplativos do gênero cyberpunk quanto às composições de Vangelis.

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John Carpenter trouxe ninguém menos que o monstro Ennio Morricone, compositor de mais de quinhentas obras, entre elas os mais emblemáticos temas de western como o incansavelmente utilizado tema de Três Homens em Conflito (The good, the bad and the ugly), talvez o tema western mais conhecido de todos os tempos e The Extase of Gold, como também autor da trilha de Era uma vez no oeste e da trilogia do dólar.

Por quase quarenta anos estes filmes vêm inspirando novas obras em todas as mídias, sendo tratados como um dos pináculos de seus gêneros e começaram como fracassos ridicularizados. Pérolas, obras de arte tão preciosas, que poderiam ter sido perdidas. Esquecidas. Todos esses momentos se perderiam no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de terminar.

(Um dos mais belos discursos do cinema de todos os tempo e foi improviso do ator Rutger Houer)