Segunda, 13 Novembro 2017 00:34

Imoral: agência do governo Ciro Gomes funcionava no escritório do irmão Ivo Gomes Destaque

Escrito por Folha de S. Paulo
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Um grupo de familiares e amigos foi beneficiado com recursos públicos durante a gestão do ex-governador cearense Ciro Gomes (1991-94), apontado como um dos possíveis adversários do presidente Fernando Henrique Cardoso na eleição do próximo ano.

Para ajudar pessoas que haviam trabalhado na campanha eleitoral, foram registradas duas empresas, a agência de publicidade Criação Ilimitada, nascida depois da vitória de Ciro, e a CMK, uma consultoria de marketing, que surgiu dez dias antes da posse, em 5 de março de 91.

As duas funcionavam no mesmo endereço do escritório de Ivo Ferreira Gomes, irmão de Ciro, localizado na rua Santos Dumont, 1343, salas 1101 e 1102, em Fortaleza.

Segundo levantamento da empresa Nielsen Associados, o governo do Ceará alcançou a quinta colocação no ranking dos maiores gastos de publicidade em 1992, com uma verba de R$ 2 milhões.

A Criação Ilimitada fazia parte do grupo de empresas que teve direito a esses recursos, segundo documentos obtidos pela Folha. Um dos seus sócios, Fernando Augusto da Silva Costa, afirma que a agência mantinha vários contratos com o Estado.

O valor destinado à agência de publicidade, a mais próxima do governo cearense, no entanto, não é divulgado pelos órgãos que possuem a informação.

O TCE (Tribunal de Contas do Estado), cujo presidente, Julio Rego, é ligado politicamente a Ciro Gomes, também não informou sobre o assunto.

A CMK teve como sócio-fundador, em 91, o sociólogo Antonio Lavareda, que hoje presta serviços de assessoria e pesquisa ao governo federal. Ele deixou a firma no final do ano seguinte.

No comando do Ipespe, Lavareda ganhou, sem licitação, um contrato equivalente a US$ 1 milhão, em 1994, para realizar pesquisas da administração estadual.

Procuradores —  As firmas CMK e Criação Ilimitada existiram apenas durante o governo tucano e tiveram como procuradores, com poderes para realizar negócios com o Estado, o próprio Ivo e Einhart Jacome da Paz, cunhado de Ciro (veja cópia dos documentos).

A rede de amizade e laços familiares teve um personagem-chave, segundo apuração feita pela Folha em documentos de cartórios enviados ao TCE (Tribunal de Contas do Estado) do Ceará por deputados estaduais.

Trata-se do contador Francisco José de Mesquita, apontado pelo deputado estadual Carlomano Marques (PMDB) como "laranja" (aquele que apenas cede nome e documentos para negócio de outra pessoa) de Einhart Jacome da Paz e de Ivo Ferreira Gomes.

A suspeita foi levantada por um motivo: Mesquita, que trabalhava com Jacome da Paz no grupo Diana, em São Paulo, passou a ser dono, formalmente, tanto da CMK como da Criação Ilimitada (veja quadro nesta página).

A direção da Diana confirmou à Folha que Mesquita havia sido funcionário da empresa, de quem já se desligou. No endereço que ele forneceu para os documentos de composição das firmas também não foi localizado em São Paulo.

Público X privado — "O que é mais grave nessa história é o fato de um irmão e um cunhado do governador agirem como procuradores de empresas com negócios contratados pelo Estado", diz Carlomano Marques. "A suspeita é de que eles fossem os verdadeiros donos."

O caso das empresas de pesquisa e publicidade têm sido lembrados também, segundo apurou a Folha, por novos adversários de Ciro Gomes, os tucanos ligados ao governador Tasso Jereissati.

Eles lembram, com o pedido de que os seus nomes não sejam divulgados, que Ciro deixou dívidas para Jereissati pagar a empresas ligadas a Einhart, o cunhado do ex-governador.

O esquema de publicidade do governo Ciro Gomes

1) Criada a empresa de pesquisa CMK em 05 de março de 91, dez dias antes da posse de Ciro no governo. Os sócios criadores são Antonio Lavareda (98%) e Francisco Borges Cavalcante (2%).

2) A CMK tem como sede o mesmo endereço do escritório de Ivo Gomes, irmão de Ciro Gomes (Rua Santos Dumont, 1343, salas 1101 e 1102, Fortaleza.

3) Em 13 de março, dois dias antes da posse de Ciro, Lavareda passa uma procuração pública dando poderes a Einhart Jacome da Paz, casado com Lia, irmã de Ciro Gomes, como administrador da CMK.

4) Fundada, em 06 de maio de 91, 50 dias depois da posse, a empresa Criação Ilimitada, que seria uma das campeãs de contrato com o governo cearense. A firma, segundo as juntas comerciais de São Paulo e Fortaleza, foi criada para substituir a empresa Brazil Trade. Os sócios são Francisco José de Mesquita, funcionário da organização Diana, de São Paulo, e Fernando Augusto da Silva Costa. Coincidência ou não, a Diana tem com um dos seus sócios Einhart, o cunhado de Ciro Gomes.

5) A Criação Ilimitada também passa a funcionar no mesmo endereço do escritório de Ivo, o irmão de Ciro.

6) Em junho do mesmo ano, a CMK, pertecente a Lavareda e representada pelo cunhado de Ciro, ganha a primeira conta no governo cearense. Havia disputado com as empresas Ipespe (também dirigida por Lavareda) e Ágil. O governo não realizou concorrência, utilizou a modalidade de carta-convite (empresas escolhidas são convidadas a disputar uma conta).

7) Em 11 de novembro de 1992, Lavareda nomeia, conforme documentação firmada em cartório, Ivo Ferreira Gomes (irmão de Ciro) como procurador da CMK, inclusive habilitado a negociar com o governo e movimentar contas bancárias.

8) Em 3 de dezembro de 92, Lavareda retira-se da sociedade, conforme a Junta Comercial do Ceará, cedendo e transferindo as suas quotas (98%) a Antônio Evandro de Castro Abreu. O valor da transferência foi a apenas US$ 1,350,00.

9) Em 21 de fevereiro de 1994, Francisco José de Mesquita, que trabalhava para o grupo Diana (empresa contratada para realizar as produções publicitárias do governo cearense, por intermédio da Criação Ilimitada), entra na sociedade da CMK, no lugar de Evandro de Castro Abreu. Passa ao mesmo tempo a ser sócio da Criação Ilimitada e da CMK.

Envolvidos no caso negam irregularidades

Ivo Ferreira Gomes, irmão do ex-governador Ciro Gomes, disse que era advogado da empresa CMK, que teve contratos com o governo cearense. Segundo ele, somente o sociólogo Antonio Lavareda, sócio inicial da firma, poderia esclarecer sobre o assunto.

"Essa coisa da CMK... eu era advogado, mas não era judicial, era alguma coisa administrativa que eu não me recordo e nem posso te dizer o que que é", disse. "Quem pode dizer isso para você é o Lavareda, que é hoje assessor lá do presidente da República."

Segundo o irmão de Ciro Gomes, o seu escritório funcionava no mesmo andar, mas em salas diferentes das empresas CMK e Criação Ilimitada, ao contrário do que registram os documentos que as empresas protocolaram em cartórios do Ceará e São Paulo.

Ivo Gomes insistiu em dizer que somente Lavareda poderia responder sobre o assunto: "Não me incomodo que ele diga. Eu não posso dizer porque advogado é igual a padre, mas ele pode liberar a informação para você".

O irmão do ex-governador admite que pode ter sido também advogado da Criação Ilimitada. "Posso até ter sido advogado deles nalguma coisa", disse. "É só perguntar ao Lavareda, que é nosso adversário agora, ele pode dizer o que bem quiser."

Lavareda informou que ficou na CMK só do início do governo Ciro (1991) a dezembro do ano seguinte. Disse que fez negócios dentro da lei e que sofreu prejuízos com a empresa. Ele se recusou a comentar as declarações de Ivo Gomes.

O publicitário Einhart Jacome da Paz, cumhado de Ciro Gomes, disse que exerceu função de procurador da CMK a pedido de Lavareda, que era dono da empresa e não tinha tempo para administrar a empresa em Fortaleza.

Sócio da empresa Diana, em São Paulo, Einhart informou que a sua relação com a Criação Ilimitada era apenas como produção de anúncios do governo cearense.

"Tinha trabalhado na campanha do Ciro e fiquei morando um tempo em Fortaleza por causa da minha mulher, que fazia um curso de medicina e não podia ser transferida", conta o publicitário. "Fui procurador da CMK para quebrar um galho para o Lavareda, que tinha ocupações em Recife."

Segundo Jacome da Paz, o negócio no Ceará era menos interessante financeiramente do que cuidar da Diana. "Levei uma prensa dos meus sócios (de São Paulo), pois Fortaleza não compensava."

O cunhado do ex-governador disse que nunca tirou proveito da proximidade com Ciro, sendo só seu vizinho na capital cearense.

Jacome da Paz informou ainda que Fracisco José de Mesquita, acusado de ser "laranja" das empresas, trabalhou com ele na Diana, mas não soube mais do seu paradeiro. "Esse cara, parece que ganhou uma herança em Minas e gostava de entrar em negócios, como as empresas do Ceará", disse.

A Folha tentou localizar Mesquita em São Paulo, durante duas semanas, sem sucesso, nos endereços registrados nos documentos da CMK e Criação Ilimitada.

Fernando Augusto da Silva Costa, sócio da Criação Ilimitada, afirmou que sua empresa prestou serviço ao governo Ciro, mas que os negócios foram legais. "Tanta coisa para vocês se ocuparem, agora vêm querer saber desse personagem (Einhart Jacome da Paz)."

O publicitário Evandro de Castro Abreu, que figurou como sócio da CMK, disse que ficou na empresa "apenas três meses". Segundo as procurações de cartório, ele permaneceu de 3 de dezembro de 1992 a 21 de fevereiro de 94.

A Folha não conseguiu localizar Francisco Borges Cavalcante, sócio minoritário (apenas 2%) de Lavareda na CMK.

(Folha de S. Paulo, 20 de outubro de 1997).

 

 

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